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O Algarve do sol, da alfarroba... e de vinhos premiados

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É fácil associar o Algarve à praia, aos figos, alfarrobas, amêndoas e laranjas. A região mais a sul do país ostenta essas bandeiras com naturalidade, mas também o vinho começa a conquistar o seu “lugar ao sol”. Fruto de reestruturação e modernização “muito assinalável”, o setor vitivinícola está a crescer e o turismo começa a diferenciar-se, também, pela qualidade do néctar de Baco. Segundo Pedro Monteiro, diretor regional de Agricultura e Pescas do Algarve, no espaço de uma década o número de produtores privados passou de “pouco mais de uma dezena para mais de 40” e a produção subiu de 500 mil garrafas anuais para 1,5 milhões. Os empresários estão a “investir fortemente no setor” e a importar “o que de melhor se faz” noutras regiões e países. E “têm sido bem sucedidos”...



Prova disso são os resultados do VII Concurso de Vinhos, inserido na XI Grande Mostra Vinhos de Portugal, co-organizada pela Confraria do Bacchus de Albufeira e a Câmara Municipal de Albufeira. O evento levou ao Espaço Multiusos de Albufeira mais de 120 produtores nacionais (mais de 20 algarvios), perto de 900 rótulos e mais de nove mil visitantes. De entre 200 vinhos nacionais a concurso, quatro produtores do Algarve ficaram entre os vencedores. Para o chanceler da Confraria, Carlos Almeida, isso demonstra que o vinho da região já alcança “excelente qualidade e não tem nada que se envergonhar em relação aos vinhos de outras regiões, consegue competir”.

O “Sauvignon Blanc 2018” da Quinta do Francês recebeu uma das principais distinções, o Grande Ouro. Nascido em França e com curso de enologia em Bordéus, o produtor Patrick Agostini mudou-se para o Algarve aos 33 anos. Era um “grande desafio” porque na altura “havia poucas estruturas, pouca técnica e as castas de brancos não eram as melhores para fazer grandes vinhos internacionais”. Plantou novas castas em 2002, construiu uma adega moderna e instalou as tecnologias de frio. Os prémios vieram a seguir. Apesar da menor dimensão, o Algarve “tem caracteristicas climáticas e de terroir para fazer vinhos tão bons e internacionais” como a Califórnia e a Nova Zelândia, considera Patrick.

Ana Agapito, representante comercial da Única – Adega Cooperativa do Algarve, congratula-se com a Medalha de Ouro do “Porches Branco 2018”, um vinho “ suave, fácil, muito tropical” e que permite sentir o “Algarve dentro da garrafa”. Na região “começam a surgir vinhos com qualidade muito superior”, constata. A Quinta da Vinha – Cabrita Wines recebeu a Medalha de Ouro pelo “Reserva Tinto 2017” e Medalhas de Prata com o “Cabrita Branco” e o “Cabrita Rosé”, ambos de 2018. A prioridade é “a qualidade, não a quantidade” e apostar nas castas nacionais para fazer vinhos diferentes. Desde 2015 que trabalham, por exemplo, a Negra Mole, uma casta algarvia que estava esquecida. No monocasta “Cabrita Negra Mole”, sem madeira, aproveitam todo o seu potencial e o tinto resulta “mais clarinho e leve, menos encorpado”, refere Andreia Cabrita.



O concurso foi risonho para a famosa Adega do Cantor, de Albufeira, projeto que tem como um dos sócios o cantor britânico Cliff Richard. O “Onda Nova Verdelho 2017” conseguiu a Medalha de Ouro e a Medalha de Prata foi para os tintos “Onda Nova Alicante Bouschet 2012” e “Onda Nova Syrah 2015”. O enólogo, Ruben Pinto, considera que o Algarve reúne condições de terroir e recursos humanos para se afirmar como produtora, faltando “mais promoção e comercialização”. Para ajudar a mudar essa situação, a adega começou a organizar visitas e provas. Só em 2018 receberam dez mil pessoas, sobretudo ingleses.

As notícias de investimentos regionais sucedem-se, mostrando o dinamismo do setor. A Casa Santos Lima, produtor de “Vinho Regional Lisboa” e “DOC Alenquer” e que exporta para perto de 50 países, tem vinhas e adega próprias em Tavira. Mais recente foi a compra de 13 hectares, pela Quinta da Aveleda, para produzir vinho no Alvor, o início de um projeto que incluirá enoturismo. Pedro Monteiro lembra, por outro lado, a criação e distribuição gratuita do Mapa da Região Vitivinícola do Algarve, numa parceira entre a Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA) e o Turismo do Algarve. Foi também apresentada pela CVA uma app para smartphones onde estão listados os produtores da região, a sua geolocalização e serviços disponíveis para visitantes, restaurantes com vinhos do Algarve na carta e locais de compra.



E as estratégias não se ficam por aqui. Além das provas e visitas guiadas, a Quinta da Tôr, no concelho de Loulé, realiza workshops de vindimas. Com adega própria há dois anos, em Albufeira, a Quinta do Canhoto, dos vinhos “Esquerdino”, já viu as suas referências medalhadas em 2018 e vai abrir um restaurante de eventos, a pensar no enoturismo. Por sua vez, quem visitar a Quinta dos Vales, em Estombar, entre Lagoa e Portimão, aprecia a fusão entre o vinho e as obras de arte do escultor Heinz Karl Stock, proprietário deste Wine Estate. O chamariz artístico junta-se às atividades vínicas e ao alojamento. No final da XI Grande Mostra de Vinhos, onde também se apresentou o gin Alarve, feito com botânicos algarvios, Leszek Czdmiel era um turista satisfeito por conhecer novas referências: “Os polacos bebem cada vez mais vinho, embora pensem que só bebemos vodka. Comprei muitos vinhos e vou visitar este lugar!”, promete.

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