Estado de Emergência

Olivier da Costa: “A proibição de venda de bebidas em take-away é injustificável e deve ser levantada"

Estado de Emergência é um ciclo de entrevistas rápidas a personalidades das áreas de turismo, hotelaria, restauração e animação em Portugal, sobre o presente e o futuro do sector, tendo em conta todas as alterações geradas pela pandemia de Covid-19

Estado de Emergência é um ciclo de entrevistas rápidas a personalidades das áreas de turismo, hotelaria, restauração e animação em Portugal, sobre o presente e o futuro do sector, tendo em conta todas as alterações geradas pela pandemia de Covid-19. Hoje, Olivier da Costa, proprietário de restaurantes icónicos da capital, como o Yakuza, o SEEN ou o Guilty, com espaços no Porto mas também lá fora, em São Paulo, no Brasil, ou em Bangkok, na Tailândia, analisa o Estado de Emergência que o país atravessa. Com novos restaurantes prontos a abrir, mal acabe o confinamento, um deles o Yakuza Paris, o líder do Grupo Olivier alerta para a “necessidade de medidas mais robustas de apoio à liquidez de um sector que é composto maioritariamente por pequenas e médias empresas”.

Estamos em Estado de Emergência, que provavelmente se vai prolongar até à Páscoa. O que representa para si e para o seu negócio ficar encerrado até essa data?

Olivier da Costa - Estamos preparados para manter as portas fechadas até depois da Páscoa. Mas não é obviamente um período fácil, mantendo o negócio apenas assente no delivery e no take-away, que apesar de ser uma ajuda, nos traz um retorno residual. No caso do Grupo Olivier temos a vantagem de vir de anos de crescimento: nos últimos anos tínhamos crescido sempre um dígito alto em faturação. Aliás, em 2019, tivemos uma ótima performance e lançámos, inclusivamente, quatro novos conceitos gastronómicos em Portugal (Savage, o primeiro restaurante virtual de chef em Portugal; KOB Porto; Guilty Porto; e Yakuza Cascais) e três no estrangeiro (Savage São Paulo; SEEN Bangkok; e SEEN Koh Samui). Em 2020, mesmo depois da enorme perda que o primeiro confinamento representou, conseguimos mantermo-nos à tona e não só reabrimos todos os restaurantes como ainda lançámos dois novos espaços: o Clássico Beach Bar, em São João da Caparica, e o Yakuza Porto. Para o início de 2021 tínhamos em plano abrir dois novos restaurantes em Lisboa e um outro em Paris. Estes projetos estão agora adiados para depois do confinamento. A maioria dos nossos clientes não perdeu poder compra e isso fez com que, apesar de todas as restrições vividas em 2020, se mantivessem os planos de expansão. Contudo, a quebra de faturação, comparativamente aos anos positivos que tivemos, torna tudo mais complicado.

Como tem conseguido sobreviver nestes estados de emergência sucessivos? Recorreu aos apoios do Estado?

Têm sido meses de grande preocupação e cautela. Tivemos de recorrer ao lay off simplificado. Neste momento é difícil planear o futuro, em termos de tesouraria, mesmo quando falamos de um grupo com o nosso nível de capacitação. Ainda mais quando as medidas demoram a ser anunciadas, regulamentadas e, depois, os apoios acabam por ser colocados tardiamente à disposição das empresas. Estes estados de emergência têm-nos colocado a todos à prova. No caso do Grupo Olivier também nos levaram a entender que podemos e devemos fazer mais pela comunidade. Por isso, logo no primeiro confinamento, juntámo-nos à SOUMA e à Junta de Freguesia de Santo António para oferecer milhares de refeições solidárias. Pelo Natal, oferecemos também duas toneladas de alimentos à Junta de Freguesia de Santo António, em Lisboa – onde se localizam os restaurantes Guilty Avenida e KOB Lisboa – e à União de Freguesias do Centro Histórico do Porto (Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória) – zona em que temos três restaurantes (Guilty, KOB e Yakuza).

Que medidas deveriam ser tomadas de imediato?

Em geral, há necessidade de medidas mais robustas de apoio à liquidez de um sector que é composto maioritariamente por pequenas e médias empresas. Depois, há medidas mais no âmbito do funcionamento dos restaurantes, como o horário dos serviços de take-away, ou a proibição de vendas de bebidas em take-away, que impactam bastante a atividade e que me parecem injustificáveis e deviam ser levantadas.

Existem lições a retirar para a restauração?

Acredito vivamente que o facto de não dependermos do turismo tem contribuído para a solidez dos nossos restaurantes. Foi por isso que, num cenário de derrocada do turismo, conseguimos manter-nos em atividade, fomos dos poucos que não fecharam restaurantes em 2020, e ainda tivemos a ‘ousadia’ de abrir dois novos espaços. Os nossos clientes são maioritariamente locais, pessoas que nos conhecem e seguem, conceito atrás de conceito. Eu vivo nos meus restaurantes e dedico-me aos clientes. Quem não tiver este tipo de base e a humildade de lhes agradecer a escolha, provavelmente, não irá superar esta pandemia.

Como perspetiva o ano de 2021? Ainda existe espaço para a esperança?

Após o primeiro confinamento voltámos a ter enchentes nos nossos restaurantes sinal de que as pessoas, tal como nós, estavam, como estão hoje, desejosas de regressar à vida normal. Isso dá-nos esperança. Por outro lado, mantemos, para já, objetivos muito ambiciosos para este ano. Em Portugal, logo que o confinamento termine, esperamos abrir não só os nossos 10 restaurantes, como inaugurar, como referia, mais dois espaços em Lisboa – um da insígnia Yakuza e outro que é a mais recente introdução no nosso portefólio, o icónico XL.

Pode ler AQUI todas as entrevistas do ciclo Estado de Emergência e Segunda Vaga.

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