Opinião

Marta Cabral: “O turismo pode ser predatório, se não for gerido com o propósito de servir a comunidade”

Santa Clara-a-Velha
Luís Guerreiro

A celebrar o nono aniversário da criação do Trilhos Pedestres da Rota Vicentina, que coincidiu com o último dia da cerca sanitária em Odemira, Marta Cabral, presidente da Associação Rota Vicentina, fala do caminho percorrido e dos muitos desafios que o futuro traz para o sudoeste alentejano e costa vicentina

Marta Cabral

Presidente da Associação da Rota Vicentina

Hoje celebram-se nove anos dos Trilhos Pedestres da Rota Vicentina. Dia 5 de junho, celebraremos oito anos da Associação com o mesmo nome. Dois momentos cruciais, entre tantos outros.

A Rota Vicentina tem vindo a progredir a passos largos, ao ritmo de crescimento da Costa Alentejana e Vicentina e da revolução do turismo no Mundo.

De um projecto irreverente ligado ao turismo de natureza, passou a representar um movimento de consolidação da oferta de turismo sustentável, integrando natureza, cultura e a comunidade local.

Reflexão entre empresas e produtores culturais – de legumes da época, artesanato, medronho, feiras ou conhecimento - construção em rede de soluções que sirvam a todos e também aos turistas.

O turismo pode ser predatório, como qualquer outra actividade, se não for gerida com o propósito de servir a comunidade a que se destina. Parece intuitivo, mas sabemos que este conceito deixa escapar uma realidade totalmente focada no lucro que o mundo precisa contornar, se quiser um rumo com algum futuro à vista.

Mais do que altruísmo, é a única solução inteligente. Sabemos o suficiente para, enquanto cidadãos e consumidores, exigirmos o melhor para todos. Comunidades produtoras e consumidores. Vale para mobílias, férias ou frutos vermelhos. Procuremos soluções de proximidade, sigamos as estações do ano, o preço a pagar será o justo e leva de brinde o prazer de sentir que alimenta uma cadeia de produção virtuosa.

Marta Cabral
DR

Cada vez usufruo mais da Rota Vicentina, já caminhei 700 dos 750 km, ando a descobrir os percursos (verdes e azuis!) de BTT, marco actividades de natureza para fazer com família e amigos, anseio pelas novidades da Agenda RV, adoro o mapa, apadrinho um percurso maravilhoso, sinto a simpática movimentação na época baixa. Como eu, são milhares os que usufruem deste trabalho que mais não é do que colocar à disposição de todos os recursos locais que mais valorizam a região.

Mas nesta data de celebração, deparamo-nos com demasiadas ameaças para podermos prosseguir sem sobressaltos. Estratégias – ou falta delas – de sobre-exploração do território com monoculturas intensivas, e não me refiro apenas ao sentido estrito no caso da agricultura, mas a tudo o que ganha escalas descontroladas sem qualquer benefício para a região que não seja um desbaratar o que é precioso e deve ser cuidado enquanto tal.

Em março realizámos o primeiro evento público da Rota Vicentina, a Semana ID, e passámos muitas horas a reflectir sobre tudo isto. Retive muitas frases que me continuam a ecoar na cabeça. É preciso acreditar no valor do que temos nas mãos e que está longe de ser uma “loja em liquidação”. Este Parque Natural não pode ser apenas uma “fantasia jurídica” e temos que “construir uma nova narrativa” que priorize o anfitrião à frente do turista. O produtor-anfitrião à frente do consumidor-turista. Uma literacia para a sustentabilidade. Consciência e sensibilização são o único caminho possível.

Por tudo isto, a Rota Vicentina assinalou o seu aniversário com a publicação de um Comunicado conjunto com a Associação Casas Brancas e o Movimento Juntos pelo Sudoeste para exigir do Governo medidas que nos devolvam a esperança por uma terra gerida com uma estratégia coerente, ancorada nos valores locais e na comunidade, com um mínimo de potencial para ser um território de inspiração e de futuro. A suspensão de qualquer novo investimento agrícola, para não agravarmos mais a situação dramática que vivemos, até que sejam encontradas as soluções que realmente servem o território. Investir num olhar atento à realidade local, ao tecido económico e social, ao trabalho de construção conjunto que tem vindo a ser construído e do qual a Rota Vicentina é orgulhosamente parte integrante.

Hoje comemoramos nove anos de Trilhos Pedestres mas orgulhamo-nos de ser muito mais do que isso. Queremos continuar este trabalho.

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