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Opinião

“Ser um país prestável, amável e de boa gente não chega”

Paula Amorim, fundadora e presidente da Amorim Luxury

David Mourao

Paula Amorim

Paula Amorim

Ffundadora e presidente da Amorim Luxury

Eleita Empresária do Ano no início de 2019 é, atualmente, presidente do Conselho de Administração da Galp e do Grupo Amorim, que integra no portefólio a maior produtora mundial de cortiça. Em 2005, fundou o Grupo Amorim Luxury direcionado para um conceito de lojas multimarcas de luxo. Há dois anos nasceu o conceito JNcQUOI — hoje a caminho do Porto — que expande o conceito de moda a outras atividades, como a restauração e a hotelaria, onde encaixa a compra da Herdade da Comporta (ver caixa). Natural do Porto, Paula Amorim, considerada a mulher mais poderosa de Portugal, é a protagonista da quinta (e última) entrevista integrada no Prémio Nacional Turismo, uma parceria Expresso /BPI. A herdeira de Américo Amorim quer que Portugal seja, mais do que um destino de luxo, uma limited edition na oferta turística mundial. Para tal, a empresária defende que “é preciso assumir o turismo como a indústria prioritária” e apostar no conceito “Hospitalidade com Compromisso”, como modelo de negócio para o sector.

Expresso: Tendo em conta o segmento em que a Amorim Luxury trabalha, o conceito que o país deveria apostar para o futuro, no que se refere ao Turismo, deveria ser “Portugal é o novo luxo”?
Paula Amorim:
Quero que o meu país seja relevante na Europa e no mundo. Ser um país prestável, amável e de boa gente não chega. Os portugueses são trabalhadores e corajosos. Só nos falta estratégia, confiança e compromisso global. Portugal tem de apostar tudo na qualidade e nunca na quantidade, pois somos um país pequeno, com infraestruturas limitadas e temos que vender o nosso produto, como uma marca de nicho. Portugal tem de ser uma limited edition (edição limitada). Basta de turismo de massas. Devemos estabelecer como modelo de negócio o conceito “Hospitalidade com Compromisso”, conceber espaços de alta qualidade e autenticidade que se transformam em instituições, com custo inerente ao conceito e com visão a longo prazo.

É esse o caminho para o turismo em Portugal? Em que áreas devem ser feitas as principais apostas?
Somos um país fascinante, e muito devido à nossa história, com grande reconhecimento internacional. Portugal, num espaço relativamente pequeno, tem um clima agradável e temperado, uma paisagem cativante e variada e uma luz excecional. Somos um povo encantador, muito hospitaleiro e com uma gastronomia rica, acrescentando o facto de Portugal ser um país pacífico, sem problemas graves. Reunimos, pois, todos os ingredientes para nos tornarmos uma nação que estabelece, verdadeiramente, o turismo como a sua indústria prioritária. É de louvar o trabalho desenvolvido pelo Turismo de Portugal: com recursos muito escassos, tem feito boas campanhas... mas não há fórmulas mágicas, nem vitalícias. Os empresários do sector e o Governo têm de acreditar que o caminho da qualidade, numa perspetiva de longo prazo, versus quantidade com horizontes a curto prazo, oferece mais sustentabilidade. É também mais duradouro, mais resiliente a fatores externos adversos, muito menos sazonal e traz uma maior preservação da autenticidade e do nosso património histórico-cultural, fundamental para os que cá vivem e os que nos visitam. O investimento na formação é fulcral, todos somos embaixadores de Portugal, desde o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) até ao empregado de mesa. E precisamos de mais empresários! Para isso, o melhor investimento que o país tem a fazer é na educação dos jovens, incentivá-los, desde cedo, a serem empreendedores e terem condições para criar as suas próprias empresas, para gerar mais emprego, criação de valor e riqueza ao nosso pequeno grande país.

Ainda estamos a viver um clima de euforia, que é, ou não, justificado, ou os mais recentes dados devem levar os principais atores do sector a ter uma visão mais ponderada?
Na minha opinião o ritmo dos últimos anos vai abrandar, pois temos imensa concorrência, e faltou-nos visão e planificação na reconversão de um produto mediano para um produto de qualidade superior. Sem uma clara visão estratégia, um contínuo e consistente trabalho e forte investimento na inovação e modernização dos hotéis, restaurantes, aeroportos, transportes, e também na formação e comunicação, a prazo poderemos ter novos problemas. Importante agora é preparar o futuro, assumir compromissos a longo prazo, dinamizar o trabalho conjunto entre todos os intervenientes do sector e antecipar os desafios da próxima década, reconhecer as nossas fraquezas e trabalhar nelas. Veja só o que está a acontecer ao nosso estrangulado aeroporto. Como podemos ambicionar sem termos as condições? Difícil! Prevejo, por isso, algumas dificuldades, mas também oportunidades.

As acessibilidades (aeroportos, rotas aéreas) são o maior “calcanhar de Aquiles” do turismo nacional? Ou existem outros fatores a ter conta?
Certamente o estrangulamento do Aeroporto de Lisboa é um drama nacional para o turismo, como a maior atividade exportadora, bem como para todos os outros sectores da economia. Veja só também quantas cadeias internacionais de luxo existem em Portugal, Lisboa, Algarve e Porto, versus os nossos concorrentes diretos. Atualmente não faltam clientes, falta, sim, muito produto de qualidade e um forte posicionamento para que o nosso turismo possa ser verdadeiramente sustentável e duradouro.

Lisboa é ou não uma cidade saturada de oferta turística (hotéis, restaurantes, número de turistas)?
Lisboa tem quase 30% do turismo nacional e é um dos motores da indústria. Dizer que tem turistas a mais é um tiro no próprio pé. Entendo que chegamos a um equilíbrio e que deveríamos, sim, aumentar a qualidade para podermos aumentar os preços.

Tem projetos para ‘exportar’ os conceitos JNcQUOI, seja para outras zonas de Portugal seja para o estrangeiro?
Com um posicionamento em tempo recorde em Portugal, o Porto será o nosso próximo objetivo. E não é só por razões históricas e familiares, mas porque a cidade vive dias de grande crescimento e precisa de mais oferta de qualidade. Quando encontrarmos o espaço certo avançaremos. Também temos tido vários convites para levar o nosso conceito para uma ou duas geografias de grande relevo.

Com algumas (poucas) exceções, nos conselhos de administração dos principais grupos hoteleiros e empresas ligadas ao turismo, não existem mulheres. É o país que perde? Que comentário gostaria de fazer a esta situação?
A diversidade é fundamental, não só de género, mas também de idades e por vezes até de geografias. A variedade construtiva num conselho de administração enriquece substancialmente as discussões de trabalho, obriga a refletir de forma mais profunda, consistente e renovadora. As discussões têm de ter contraditório, portanto se o perfil dos administradores é idêntico e consensual, será mais difícil implementar mudanças e inovações.

Textos originalmente publicados no Expresso de 12 de outubro de 2019

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