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Opinião

“É um mito que todas as regiões possam ser destinos turísticos”

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Gonçalo Rebelo de Almeida

José Fernandes

Gonçalo Rebelo de Almeida

Gonçalo Rebelo de Almeida

Administrador do Grupo Vila Galé

Nas próximas semanas, o grupo hoteleiro Vila Galé, o segundo maior em Portugal, vai inaugurar, em Elvas, a 34ª unidade do portefólio. Uma aventura que começou com Jorge Rebelo de Almeida, no Algarve, em 1988, e que hoje tem, no filho Gonçalo, um continuador assumido. Com 45 anos, Gonçalo Rebelo de Almeida, licenciado em direito e administrador do grupo desde 2013, olha o futuro com otimismo, ainda que reconheça a desaceleração do turismo em Portugal e as dificuldades com o recrutamento de mão de obra. Nesta que é a primeira de um conjunto de entrevistas a personalidades no âmbito do Prémio Nacional de Turismo, uma parceria Expresso/BPI, Gonçalo Rebelo de Almeida diz que quer “plantar mais do que uma bandeira” nos países que o grupo venha a entrar.

Com projetos em remodelação e outros em fase de construção no seu grupo, os recentes dados que revelam abrandamento do turismo em Portugal não o assustam?
O turismo em Portugal não depende apenas de si próprio. Estamos, e sempre estaremos, dependentes das conjunturas internacionais e das economias dos principais países emissores de turistas. A exemplo do que aconteceu em 2008, no último ano já se começaram a sentir sinais de abrandamento. Não é um dado surpreendente, mas isso também fez com que se trabalhassem mercados alternativos, atenuando algumas quebras. Da mesma forma que nos obriga a nós, hoteleiros, a criar novos produtos para provocar a repetição de visitas.

Algarve e Madeira, mais do que Lisboa, associada à questão do aeroporto, são destinos em risco para 2019?
Regiões como Norte, centro, Alentejo e, até, Lisboa vão continuar a crescer. Mas tenho muitas dúvidas que o Algarve e a Madeira consigam ter as performances dos últimos anos. No nosso caso, de uma forma geral, o ano começou mal, mas existe uma recuperação que nos permite ter a esperança de, pelo menos, repetir os resultados de 2018, naquilo que é comparável. Tendo em conta as novas aberturas e o crescimento no Brasil, acredito que vamos ter uma faturação superior à do último ano.

Por onde passa o futuro da hotelaria nacional?
Pela inovação e pela diferenciação. É cada vez mais difícil ter um produto generalista e que agrade a todos. O caminho é focarmo-nos no target que queremos atingir e desenvolver produtos específicos, segmentando a oferta e assumir que cada hotel pretende servir um público diferente, que tanto procura experiências de enoturismo, como uns dias de férias em família na praia. Por outro lado, é preciso acabar com o mito de que todas as regiões possam ser destinos turísticos. Portugal é um país turístico, mas nem todos os concelhos têm esse potencial e deveriam apostar noutras áreas, tornarem-se polos de desenvolvimento tecnológico, industrial ou agrícola. Este é um mal associado à euforia do turismo…

E o futuro do grupo Vila Galé? Além do Brasil, existe vontade de entrar em outros países?
Temos estado a analisar destinos como Cabo Verde e Espanha, projetos que ainda não se concretizaram por razões diferentes. O primeiro por ainda não termos encontrado o local ideal, o segundo pelo facto do preço dos imóveis ter sofrido uma inflação grande. Mas, acima de tudo, quando avançamos para um novo destino não queremos plantar apenas uma bandeira, queremos pelo menos ter mais do que um projeto. Assim, olhamos sempre para o nosso potencial de crescimento e se conseguimos ser uma marca relevante nesse novo destino.

Entre a cidade e a praia, o que é mais atrativo em Espanha?
Espanha, tal como Portugal, permite-nos estar com diferentes tipos de produto. É encarada como uma extensão do nosso portefólio. Tanto podemos ter uma oferta de praia, porque a nossa rede comercial está preparada para o fazer, como podemos ter ganhos na distribuição no que diz respeito ao turismo de cidade. Mas Espanha tem também o atrativo de poder receber projetos de enoturismo, turismo equestre e de turismo de natureza.

O Brasil é como um segundo amor?
No Brasil temos três hotéis de cidade e seis resorts. Em ambos os segmentos temos novas aberturas já programadas. Na faturação global, o Brasil representa 40 por cento. Estar no Brasil é como estar em cinco ou seis países europeus, tal a dimensão. A verdade é que temos uma posição de destaque e somos a maior rede de resorts do país e, por tal, estamos sempre atentos a novas oportunidades. Mantemos, também, a vontade de continuar a investir em Portugal. Estamos a analisar a candidatura ao projeto Revive para o Quartel da Graça, em Lisboa, e atentos a cidades do interior, onde existe potencial turístico.

A falta de mão de obra não deveria estar entre as prioridades dos hoteleiros?
É uma lacuna geral e não apenas associada ao sector do turismo. Nós — Vila Galé — temos vagas permanentemente em aberto e não as conseguimos preencher. Existem três formas de combater este problema: fazer a reconversão de trabalhadores de sectores que não estão em crescimento; incentivar os trabalhadores-estudantes, uma prática quase em desuso, mas que o sector pode acomodar facilmente, até pelos horários; e a captação de mão de obra estrangeira, nomeadamente, com protocolos e parcerias estratégicas com os países da lusofonia…

Tendo em conta o atual contexto político internacional, essa pode ser uma questão delicada…
Não me identifico com aqueles que dizem que os trabalhadores estrangeiros vão descaracterizar a nossa prestação de serviços baixando a qualidade da oferta. Obviamente que esses trabalhadores vão ter de se integrar socialmente e de fazer e formação e absorver a cultura e a história das empresas. Tem de ser um processo bem enquadrado e não um movimento indiscriminado de fronteiras abertas.

Textos originalmente publicados no Expresso de 15 de junho de 2019