Covid-19

Cerca sanitária em Odemira gera revolta e indignação entre hotéis e restaurantes: “Isto é um prejuízo monumental para todos nós!”

Praia da Zambujeira do Mar
Divulgação

Duas freguesias de Odemira, São Teotónio e Longueira/Almograve, encontram-se isoladas devido à cerca sanitária decretada pelo Governo. Os proprietários de alojamentos e restaurantes desesperam pela situação que consideram “uma vergonha para o nosso país”

Revolta, indignação e até alguma surpresa é o sentimento comum partilhado por proprietários e empresários dos sectores da hotelaria e restauração de Odemira, sobretudo das duas freguesias onde foi decretada a cerca sanitária, São Teotónio e Longueira/Almograve, onde se inserem locais de grande procura turística como a Zambujeira do Mar.

Apesar de reconhecerem que este é um problema de saúde pública que deve merecer cuidados,redobrados, a verdade é que também todos estranham que a situação tenha chegado a este ponto extremo, tendo em conta que “a sua origem é conhecida pelas autoridades sanitárias há muito tempo”.

Poucos são também os que compreendem como podem estas freguesias estar a recuar no plano de confinamento, quando todo o país avança em relação ao combate à covid-19. “Num momento em que já não está em causa o funcionamento do Sistema Nacional de Saúde, em que o processo de vacinação de grupos de risco já está num estado avançado, os processos de identificação de cadeias de transmissão são eficientes e em que estamos numa situação de saúde pública melhor do que há três meses, a opção pela cerca sanitária é desproporcional e incoerente, não estando suportada pela realidade”, considera Pedro Franca Pinto, proprietário do alojamento Craveiral Farmhouse, em São Teotónio. “Esta é uma iniciativa incoerente, tendo principalmente em conta a decisão de abertura de fronteiras com zonas em que os números de covid-19 na população são iguais ou superiores aos de Odemira. O Estado Português deve ser fator de promoção de coesão nacional e estas decisões, aparentemente contraditórias, não a promovem”, acusa. Da parte do Craveiral Farmhouse, “vamos continuar a tentar contribuir para a coesão social da freguesia onde nos inserimos, garantindo todos os postos de trabalho, mantendo-nos abertos e dedicando-nos a trabalhos internos”.

Neste sentido, Pedro Franca Pinto partilhou com o Boa Cama Boa Mesa o comunicado que enviou a todos os seus colaboradores: “O Craveiral Farmhouse vai continuar aberto. Os postos de trabalho vão manter-se todos, incluindo contratos a prazo e que se tenham iniciado agora, e vamos continuar a contratar para preparar o verão. Durante a cerca sanitária, e não havendo hóspedes por não poderem chegar ao Craveiral Farmhouse, vamos manter o take-away e delivery. Para além disso, agradeço a disponibilidade de todos para fazermos trabalhos de manutenção, limpeza, arrumos, montagem de parque infantil, montagem de skate park, paisagismo, limpeza de arrumos, etc. Obrigado e vamos a isto!”, pode ler-se na comunicação enviada.

Craveiral Farmhouse, em São Teotónio
Martin Kaufmann

De portas abertas irá continuar também a Herdade do Touril, na Zambujeira do Mar, ainda que em circunstâncias diferentes, mais gravosas para os seus colaboradores. “Perante este anúncio, e atualmente com apenas dois hóspedes que vão ficar durante a cerca, o que vou fazer já esta semana é pôr pessoas em casa, e depois tentar perceber se temos ou não condições para abrir e quando”, lamenta Luís Leote, o proprietário. Ao Boa cama Boa Mesa explica que “acabámos de fazer investimentos, acabámos de abrir a parte nova do restaurante por causa do distanciamento e de todos os cuidados de higiene, tivemos mais de 50% da equipa a trabalhar apesar de termos estado vazios porque ninguém vem para um hotel para tomar pequeno-almoço ou almoçar no quarto, e agora, que estávamos a ficar novamente cheios, ficámos a zeros. 80% das reservas que tínhamos para este fim de semana e próxima semana foram canceladas, e as que não foram somos nós que estamos a contactar a avisar que temos uma cerca sanitária”. O proprietário do Herdade do Touril põe o dedo na ferida e acusa que “esta é uma situação que acontece há anos. Todos têm conhecimento dela, mas todos fingem que nada se passa. E a questão que ponho é se quando a cerca sanitária for levantada, o problema irá ser resolvido”, questiona.

A mesma acusação é feita pela proprietária do restaurante O Josué, em Longueira. “Todos, incluindo as autoridades, estamos fartos de saber o que se passa na nossa freguesia. E agora estamos aqui fechados”, revolta-se Manuela dos Santos, indignada com a situação que agora se vive. “Isto é lamentável, é uma vergonha para o nosso país”, insurge-se em conversa com o Boa Cama Boa Mesa. “Nós somos obrigados a estar presos, isto é uma prisão domiciliária, e se alguém tem culpa são as entidades que mandam neste país”, acusa. Manuela dos Santos admite que há razões para medidas duras, mas que “não é agora que deviam ser tomadas, já deviam ter sido tomadas a partir de março e não agora que já todo o país está desconfinado”.

Quem também não consegue esconder uma enorme indignação é Luísa Botelho, proprietária do alojamento Teima, Alentejo SW, em São Teotónio: “Nós não temos nada a ver com esta situação - que foi criada não sabemos bem por quem - de termos uma população de milhares de imigrantes, quase igual à dos habitantes, a viver sabe-se em que circunstâncias, e a propagar a doença. É inacreditável que nos estejam a fazer uma coisa destas”, reage, em declarações ao Boa Cama Boa Mesa. “No nosso caso tínhamos as duas próximas semanas todas cheias e tivemos tudo cancelado. O que tem de ser feito é o controlo dos imigrantes, apostar na testagem massiva, e não prejudicar as outras pessoas. Os residentes não são os maiores afetados por esta pandemia em termos de contágio, são eles, os imigrantes”, acusa. “Estamos todos revoltadíssimos e isto é um prejuízo monumental para todos nós. A forma como tudo isto está a ser conduzido, deixa-nos indignadíssimos”, desabafa Luísa Botelho.

Teima Alentejo SW

A cerca sanitária às freguesias de São Teotónio e de Longueira/Almograve, no concelho de Odemira, distrito de Beja, foi declarada no dia 29 de abril pelo primeiro-ministro, António Costa. Também o presidente da Junta de Freguesia de São Teotónio, Dário Guerreiro, reagiu à SIC Notícias, dizendo que “esta é uma fatura demasiado pesada para a região, que deve ser compensada”.

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