Covid-19

De portas abertas mas sem turistas, saiba como sobrevivem os restaurantes e hotéis do Funchal

Perante a tremenda quebra da ocupação, cativa-se o público regional para mitigar perdas e seguram-se estrangeiros em teletrabalho. Readaptação de menus e horários, lay-off, a não cobrança de taxas de delivery, estadas mais longas e promoções especiais ajudam a resistir à crise

Do tempo em que se serviam à volta de 100 refeições diárias no restaurante PVP – Pão, Vinho e Petiscos, restam as memórias. Hoje, contam-se em média 25 a 30 por dia. Quando a pandemia se agravou, foram-se os turistas, a grande fatia da clientela. Na Madeira não há confinamento geral, os restaurantes abrem até às 18h, à semana, e às 17h ao fim-de-semana. Porém, devido às restrições de circulação impostas nos principais mercados emissores, o inglês e o alemão, “os hotéis ficaram vazios e não há turistas a circular”, lamenta o gerente do PVP, Ivo Bruno Câmara. O staff do PVP, a funcionar há 15 anos no Funchal, passou a trabalhar menos horas e o menu foi reduzido e readaptado “ao cliente local”. “Deixaram de fazer sentido as costeletas de cordeiro, o lombo de javali e o coelho frito. Os madeirenses procuram chicharros, cavalas, o atum a espada, polvo e bacalhau”, explica o gerente. Não é que apostar no take away ao jantar dê lucro, “mas também não dá perda e mantém-se as pessoas ocupadas...

Restaurante Il Vivaldi
MARIO ANDRE BETTENCOURT JARDIM P

Consciente de que está apenas a tentar “salvar” o investimento, Pedro Gomes também mantém o restaurante Il Vivaldi aberto. O confinamento de 2020 implicou a perda imediata de metade da faturação e não mais se recuperou desse resultado, porque a ilha “sobrevive praticamente toda do turismo”, afirma o sócio-gerente. Tem pessoal em lay-off, mas não despediu gente. Direcionou a estratégia para o mercado local e introduziu um prato do dia ao almoço, com “com boa relação qualidade-preço”, além de grandes campanhas de promoção e do take away. A estratégia “tem funcionado”, auxiliada pela Linha Invest RAM Covid-19 e a injeção de capital próprio.

As sugestões do dia e pratos com bebida incluída chegam ao Mau Feitio, que abriu a 4 de dezembro. Antes, funcionava neste sítio um restaurante com clube de jazz, atraindo turistas à semana e locais com mais de 55 anos ao fim-de-semana. O primeiro grupo sumiu e o segundo deixou de frequentar sítios fechados, de maior risco de contágio. Onde antes havia um palco, há agora uma cozinha aberta. Mudou o espaço, o conceito e o menu – servem-se pratos “diferentes”, uma “boa carta de vinhos e boas carnes”. O filete de espada com banana, por exemplo, “é muito turístico, mas não faz parte da gastronomia regional”. “A mudança que fiz foi uma tábua de salvação. Ou me readaptava ou encerrava. [O novo restaurante] Tem permitido ser mais atrativo para o mercado local”, comenta Márcio Nóbrega, sócio-gerente do Mau Feitio.

Restaurante Mau Feitio

Apesar de a pandemia nunca ter fugido ao controlo na ilha, os estrangeiros “têm dificuldade em viajar. O chef do KAMPO, Júlio Pereira, manteve o take away, abriu a padaria artesanal Kôdea no piso inferior, e teve de encerrar temporariamente o AKUA. Ao contrário do que aconteceu no primeiro confinamento, desta vez não houve dispensa de colaboradores. E não se cobram taxas de delivery, sendo as entregas feitas pelo staff e mesmo pelo chef. “O cliente continua a querer comunicar connosco”, nota o Júlio Pereira. Em 2020, as quebras nas contas do KAMPO by Chef Júlio Pereira rondaram os 60 por cento, em linha com o que se verifica na ilha. O que se faturou, ficou sobretudo a dever-se ao “turismo residente”, estrangeiros em teletrabalho.

Sé Boutique Hotel
MARIO ANDRE BETTENCOURT JARDIM PEREI

Hotéis com novas promoções
Há estrangeiros alojados no Castanheiro Boutique Hotel desde dezembro, usufruindo de tarifas especiais e da kitchenette dos quartos. Lançaram-se pacotes diurnos (desde €25, meio dia) para utilizar os quartos em teletrabalho, com almoço e acesso ao spa, ginásio e parque de estacionamento. Com as restrições de viagem de janeiro, a ocupação caiu para cerca de 20 por cento, o que levou o hotel a concentrar os hóspedes num dos edifícios e a fechar o outro para poupar nos custos e facilitar a logística. Recorreu-se ao lay-off, teletrabalho e a dispensas. Como explica a diretora comercial, Sandra Abreu, têm sido feitas “muito mais campanhas para o mercado regional e nacional: acesso à piscina e almoço; e o “Escapadinhas de Inverno”, com direito a alojamento, jantar e ofertas no spa. Datas especiais, como o Dia dos Namorados e o Dia da Mulher, não foram esquecidas.
Face a quebras de faturação que atingem os 90 por cento, o Sé Boutique Hotel está a “serviços mínimos” em várias áreas. Adaptou-se o rooftop, antecipando a abertura para as 10h para poder servir brunch e cocktails até às 18h. O hotel fez uma “campanha muito assertiva para nómadas digitais, com mínimo de 28 noites, “para que possam estar num misto de lazer e trabalho”, informa o proprietário, Ivo Correia. O programa “Escapadinhas Urbanas” convida os residentes a passarem “um fim-de-semana na cidade” com preços mais em conta e direito a cocktails, jantar, e acesso à nova piscina e ao spa (com descontos). A pensar no público nacional e na Páscoa, lançou-se o pacote “Campo Cidade”, de sete noites, em parceria com as Casas da Levada e com 15 por cento de desconto na oferta global.

Les Suites at The Cliff Bay
Henrique Seruca

Neste momento, regista-se uma ocupação “muito, muito baixa” nas unidades do grupo Portobay do Funchal, informa a administradora Fabíola Pereira. Como o The Cliff Bay e o Les Suites at The Cliff Bay estão fisicamente ligados, concentra-se a operação no Les Suites, mantendo o acesso ao mar e ao restaurante junto à piscina do The Cliff Bay. A boa exposição dos restaurantes Avista (Les Suites) e Il Basílico (Hotel Vila Porto Mare) ao mercado local saiu reforçada, com um aumento de clientes: “A estratégia de aproximação à comunidade local mitiga algum impacto”, admite Fabíola Pereira. Aos eventos, como a Rotas das Estrelas, juntaram-se ações como show cookings com Benoît Sinthon e sugestões semanais distintas. Atingindo certo volume de consumos na refeição, o cliente recebe ainda “amenities premium”. O premiado Il Gallo d'Oro foi remodelado e, no alojamento, lançaram-se a “Noite Romântica” e programas de Day Use.
Fechada a Quinta Jardins do Lago devido ao “nível de cancelamentos brutal”, remodelou-se a piscina, o solário e há mais 7500 metros quadrados de jardins, além das intervenções iniciadas em 2017. O diretor geral, Alberto Reynolds, sublinha que o alojamento ficou “totalmente renovado”. Mesmo com quebra de dormidas “superior a 60 por cento”, em janeiro e fevereiro, a Quinta da Casa Branca (do mesmo grupo) mantém-se aberta. Encerrou apenas duas alas de quartos, jacuzzi e banho turco, e remeteu parte do staff para lay-off. Apostou-se nas estadas de média e longa duração nas suites da Casa Mãe, autónomas e em privacidade, mais rentáveis e de menor custo energético. Lançaram-se, ainda, ações para o mercado local no restaurante The Dinning Room: brunch ao fim-de-semana, jantares temáticos e sugestões do chefe diárias com wine pairing.

Les Suites at The Cliff Bay
Henrique Seruca

Alteraram-se, entretanto, as condições de acesso ao corredor verde para entrar na Madeira. Ele já existia para quem chegava com teste negativo e passa agora a receber também turistas vacinados e recuperados da Covid-19 (com comprovativo até 90 dias de validade). Para tal, “têm de apresentar os certificados que atestam as suas novas condições”, através da app madeirasafe.com antes da viagem.

O Boa Cama Boa Mesa viajou a convite da APM – Associação de Promoção da Madeira

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