Boa Vida

Descobrir Trancoso, terra de heróis invulgares e lendas surpreendentes

Castelo de Trancoso
Aldeias Históricas de Portugal

Visitar a Aldeia Histórica de Trancoso é conhecer as lendas surpreendentes do padre com 299 filhos ou de Bandarra, o poeta adivinho e sapateiro que serve de inspiração à primeira iniciativa de 2021 do ciclo "12 em rede - Aldeias em Festa".

Dora Troncão

Jornalista

Trancoso é o palco do primeiro do primeiro evento de 2021 do ciclo “12 em Rede - Aldeias em Festa” com “Bandarra: O Sapateiro Contador de Histórias e Futuros”. No próximo dia 5 de junho, o poeta adivinho, mas também herói pelas trovas contestatárias de que é autor, Gonçalo Anes Bandarra (1500-1556), é a personagem que serve de inspiração à primeira festa deste ano dedicada à cultura, património e tradições das Aldeias Históricas de Portugal.

Ciclo "12 em Rede - Aldeias em Festa"
Paulo Chaves

Ao entrar em Trancoso, nas portas de El Rei, na rua da Corredoura, encontra-se à esquerda a Casa da Prisca, mercearia fina de paragem obrigatória. À porta, uma estátua divertida e kitsch, dá as boas-vindas a quem entra nesta cidade que é Aldeia Histórica de Portugal. Representa a figura do padre Costa, conhecido como o “Povoador das Beiras”, de quem se diz foi pai de 299 crianças com 53 mulheres. Santos Costa, historiador de Trancoso, sem qualquer relação de parentesco com o padre, lembra que a lenda foi divulgada por Pinho Leal, no século XIX, no nono volume do “Portugal Antigo e Moderno”, onde se pode ler “299 filhos, distribuídos pelas 53 mulheres”. Mas, chama a atenção: “Se somarmos, dá 325 e não 299”. Com as contas por esclarecer, a verdade é que naquela época não havia “desculpa”, ou “ajuda”, do licor e do chá afrodisíaco, ambos alusivos ao padre Costa, recordações para provar na Prisca enquanto se trocam dois dedos de conversa com o bem-humorado proprietário, o sr. Agostinho. Já tabernas haveria, assim como belos petiscos, uma realidade que de lenda nada tem atualmente em Trancoso. Caso o padre namoradeiro fosse contemporâneo, de frente à respetiva estátua, na Taberna do Bacalhau Frito (tel. 271817047), provaria o fiel amigo com batatas às rodelas e cebolada, mas também peixinhos do rio e sardinhas doces, uma receita conventual típica desta aldeia histórica, feito de doce de ovos, amêndoa e chocolate. Existem várias versões destas Sardinhas Doces, todas dignas de prova, mas as da D. Rosinha, hoje a doceira mais antiga de Trancoso, são imperdíveis. Vendem-se na Pastelaria O Trovador (Tel. 271812180).

Aldeia Histórica de Trancoso
Paulo Chaves

Casa do Bandarra

Continuando o périplo, à direita, na rua de São João, as rodas de carroça denunciam o lugar do Retiro do Castiço, onde se petisca à séria e se prova um digestivo de receita secreta (Tel. 919188129). Talvez o poeta adivinho e sapateiro de Trancoso, O Bandarra, outra figura pitoresca, desvendasse a composição… Gonçalo Anes (1500-1556), O Bandarra, cujas trovas e premonições de inspiração divina e proféticas baseadas no "Antigo Testamento", se adaptavam a acontecimentos históricos, tem estátua admirável no Largo do Município. Os poemas valeram-lhe um processo do Santo Ofício em 1541. A Casa do Bandarra, inaugurada em 2017, surpreende pelo entretenimento multimédia como os contos relatados por personalidades da terra; a curta-metragem sobre a vida do poeta (inclui a prisão na Inquisição) e o documentário com curiosidades da sabedoria popular (Tel. 271817176). Diz-se, por aqui, que os versos de Gonçalo Anes ecoam quando se espreita o poço no terraço da Casa do Bandarra. O mausoléu do poeta pode visitar-se na igreja de São Pedro, no largo do Pelourinho.

O Bandarra
Aldeias Históricas de Portugal

Rua da Alegria

Trancoso tem naturalmente o encanto do castelo, das igrejas e do pelourinho, incontornáveis postais turísticos, mas há uma rua encantada que merece visita e muitas fotografias. De um lado e do outro são de perder a conta a tantas e tão belas flores. Sobretudo hortênsias, frondosas, azuis e cor-de-rosa, plantadas pelos moradores e que enchem o olho e a alma de quem passa nesta rua estreita e sem carros, muito apropriadamente chamada de Rua da Alegria.

Rua da Alegria
Paulo Chaves

O bosque encantado

Santos Costa, historiador com profusa obra publicada sobre figuras e episódios históricos de Trancoso tem no parque municipal, construído em 1896, o local de eleição “para o repouso e meditação”. Este belíssimo bosque é, para o historiador, “uma joia da cidade”. Comporta uma vasta diversidade de espécies arbóreas de grande porte como uma sequoia, por exemplo. “Foi murado e ampliado no século XIX, aproveitando um viveiro de árvores ali existente, as quais serviam para colocar à beira das estradas reais de modo a causarem sombra aos cavalos”, conta. “A autarquia adquiriu, então, árvores exóticas, algumas do Jardim Botânico de Coimbra”, refere ainda Santos Costa. Do lado nascente, tirando partido do frondoso arvoredo, um pequeno percurso de arborismo surge de forma natural. Salienta a existência de “um lago, bancos para leitura, mesa de pedra para merendas e lugares para namorar”. O parque fica situado junto à Av. Campo da Feira, onde se realiza a feira semanal de Trancoso, criada por D. Dinis e muito concorrida desde sempre. Em agosto, o destaque vai para a Feira de São Bartolomeu, que reclama para si o título de “A Mais Antiga do País”, referida por Mofina Mendes, num auto de Gil Vicente. Esta é mais uma figura do imaginário popular para conhecer, a partir da estátua levantada junto ao convento dos frades em frente à entrada principal do parque municipal.

Castelo de Trancoso
Aldeias Históricas de Portugal

Este artigo foi adaptado do Guia das Aldeias Históricas de Portugal, oferecido com o Expresso, no dia 30 de maio de 2021

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