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Silêncio, que a água está a correr... na Aldeia Histórica de Castelo Novo

Castelo Novo
Aldeias Históricas de Portugal

Banhada pela ribeira de Alpreade, esta aldeia histórica de casinhas graníticas, no concelho do Fundão, aninha-se no sopé da serra da Gardunha. Guiado por Laurinda Duarte, Sandra Paulino e Rita Gomes, o Boa Cama Boa Mesa fez uma grande viagem no tempo: passado, presente e futuro.

O ponto de encontro é o restaurante O Lagarto, o único que há em Castelo Novo, no Fundão. É o mundo de Ana Paula, a cozinheira que inscreve no menu um arroz-doce branco, sem gema de ovo, e o típico cabrito assado com arroz de fressura, dando continuidade ao costume de se “aproveitar os miúdos do cabrito”. De energia renovada, saúda-se Laurinda Duarte, Sandra Paulino e Rita Gomes, que vão guiar o passeio pela sua aldeia. A dois passos fica o cruzeiro, erguido numa zona familiar para Laurinda: “Antigamente era tudo em terra batida. Os meus avós punham aqui os cereais a secar e à noite era debulhado em casa”, recorda. Bem perto está o cabeço da forca, que foi um local de martírio. Repare nas duas caveiras esculpidas num bloco granítico e no orifício onde assentavam os esteios da forca.

Explorar o Castelo - anfitriãs Laurinda, Sandra e Rita
DR

O grupo segue pela calçada romana reparando nas azáleas e roseiras de Laurinda, em frente à sua casa. Por esta altura, esteja também atento ao branco das cerejeiras em flor e ao rosa dos pessegueiros. Na rua da Bica concentram-se solares antigos e o chafariz fundeiro. A água é um elemento central em Castelo Novo: além das fontes e da ribeira de Alpreade (excelente para banhos no verão), é junto a esta aldeia que nasce a água do Alardo. “Se vier cá num dia de chuva, ouve os ribeiros da serra da Gardunha. Castelo Novo é som de água a correr pelas fontes, cheiro a castanha assada no outono, a lareira no inverno, cheiro de mimosas e barulho de andorinhas na primavera e o calor e inquietação dos que à casa tornam no verão ”, contenta-se Sandra.

Castelo Novo
Paulo Chaves /Aldeias Históricas de Portugal

O chafariz da Bica ganha pontos em beleza e no prazer do convívio, sobretudo nos preguiçosos serões de estio. “É fresquinho e muito agradável. Não há barulho, só o som da água a correr e conversas pela noite dentro”, descreve Laurinda. Não se esqueça das cascatas (antes da “ponte pequena” escondem-se algumas e vários poços de água), nem da praia fluvial à entrada da aldeia, muito aprazível quando temperatura sobe. Dá para fazer caminhadas, tem um grande relvado e mesas de madeira, além de um bar com petiscos no verão.

Castelo Novo
Aldeias Históricas de Portugal

Lendas e Saramago

O posto de turismo mudou-se para o largo da Bica e aí pode encontrar produtos da região como azeites, mel e compotas. É também neste largo que se realiza a maior festa de Castelo Novo, no primeiro fim de semana de setembro, em honra do Senhor da Misericórdia. Nessa altura, “quase não há uma casa vazia”, asseguram as moradoras. Reza a lenda que uma bruxa chamada Belisandra atendeu à súplica do povo para que ela salvasse as culturas de uma ameaçadora praga de gafanhotos: os populares teriam de fazer uma procissão e rezar ao Senhor da Misericórdia. Assim fizeram, livrando-se de uma peste e dando início à tradição dos festejos. No dia 19 de junho, Castelo Novo recebe também toda a animação gerada pelo ciclo “12 em Rede – Aldeias em Festa”.

Passa-se junto à Igreja da Misericórdia, que guarda uma imagem alusiva ao Senhor da Misericórdia, e chega-se à praça onde está o pelourinho, o chafariz D. João V, e a antiga casa da câmara – a cadeia funcionava no piso inferior. A lagariça era um lagar comunitário ancestral disfarçado pelo casario. Em frente vive Teresinha Bragança que, com o marido, Carlos Bragança, conversou com José Saramago na segunda visita do Nobel da Literatura a esta aldeia. Sobre o Nobel da Literatura, que descreveu a Aldeia Histórica de Castelo Novo como “uma das mais comovedoras lembranças do viajante”, Teresinha salienta a personalidade “muito acessível e dócil”.

Castelo Novo
Aldeias Históricas de Portugal

O castelo e a torre do relógio

Mantêm-se as recordações junto à fonte da Cal, onde Laurinda brincava em miúda. Mais adiante, tente fazer festas à Pedra e ao Castelo, os amigáveis burrinhos do Pedra Nova – Turismo de Aldeia, visíveis desde a estrada que liga à igreja matriz. Depois, suba ao castelo outro grande ponto de interesse, onde ainda se exibem muralhas, a torre do relógio e as estruturas da torre de menagem. Castelo Novo integrou-se, inicialmente, nos territórios doados pelos monarcas portugueses à Ordem dos Templários, para defender os domínios conquistados aos muçulmanos, no século XIII. Desde a torre de menagem obtém-se uma vista soberba sobre a aldeia e a serra da Gardunha. Espreite ainda o miradouro das Alminhas e o miradouro da “Pardinha”, onde se encontra um mural de arte urbana assinado por Samina e dedicado ao pintor Barata Moura, que era natural de Castelo Novo

Bonecas de lã
Aldeias Históricas de Portugal

As bonecas de lã

No meio do labiríntico e desalinhado traçado medieval, desenhado por habitações em granito, com portas e janelas às cores, descobre-se a Galeria de Arte Manuela Justino e o Atelier de Histórias Criativas, onde se pode observar a feitura das bonecas em lã, uma “forma diferente de dar a conhecer as aldeias históricas”, salienta Rita Gomes, recordando ser este um projeto de cariz social, cultural e educativo e desenvolvido pelas Aldeias Históricas de Portugal em parceria com os municípios da rede. A propósito de centros de reunião, saiba que a Associação Sociocultural de Castelo Novo - que tem um bar, salões de jogos e de festas, com esplanada -abre por norma aos fins de semana, estando sempre a funcionar no verão.

Aventure-se pelos castanhos e verdes dos trilhos pela serra, que é conhecida, até, por fascinantes relatos de avistamentos de óvnis. Recomenda-se ainda o PR11, um percurso circular de quase 3 km que dá a volta à aldeia, natureza adentro, passando junto à ribeira de Alpreade.

Ribeira de Alpreade
Aldeias Históricas de Portugal

Este artigo foi originalmente publicado no Guia das Aldeias Históricas de Portugal, oferecido com o Expresso, no dia 30 de maio de 2021

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