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Mosteiro de Alcobaça restaura “obra-prima do génio criador humano”

Começaram as obras de conservação e restauro deste túmulo, considerado uma “obra-prima do génio criador humano”. A UNESCO inscreveu o Mosteiro na lista de Património Mundial da Humanidade em 1989

O Mosteiro de Alcobaça iniciou, pela primeira vez, obras de conservação e restauro do icónico túmulo de D. Pedro I. A intervenção começou com uma limpeza geral e a retirada de milhares de fragmentos de silicone, remanescentes dos moldes que foram feitos aquando da exposição Europália 91. Está também previsto o restauro do túmulo de D. Inês de Castro. Estes túmulos foram considerados, a par da igreja, “obras-primas do génio criados humano” pela UNESCO, que inscreveu o Mosteiro na lista de Património Mundial da Humanidade em 1989. Estão também em preparação visitas didáticas, abertas à população, para explicar às pessoas que estes bens precisam de ser intervencionados e que a nossa missão principal é a conservação dos bens culturais para as gerações vindouras, explica a diretora do Mosteiro, Ana Pagará.

Os túmulos acabaram por ser colocados frente a frente, no transepto da igreja - onde está também o Trânsito de São Bernardo -, quem sabe para que as suas almas se reencontrem na subida aos céus”. Devido à história que lhes está associada, “alimentaram o imaginário Romântico europeu”. D. Pedro I enamorou-se de D. Inês de Castro, dama de companhia da sua esposa, até ao trágico assassinato de D. Inês, supostamente a mando do pai de D. Pedro, o rei Afonso IV. Quando D. Pedro se torna rei, vinga-se dos carrascos da amada, manda trasladar com pompa o corpo de D. Inês para este Mosteiro e consegue fazer colocar um túmulo dentro de uma igreja cisterciense, um feito inédito. Mesmo não sendo rainha, D. Inês foi a primeira a quebrar a regra. O túmulo de D. Pedro I contém o ciclo iconográfico dedicado a São Bartolomeu e a roda da vida com a representação do quotidiano do casal, incluindo degolação de D. Inês de Castro, cujo túmulo apresenta iconografia da Paixão de Cristo e do Juízo Final, e uma coroa na figura jacente.

Este Mosteiro resultou da visão estratégica de D. Afonso Henriques, que doou, a 8 de abril de 1153, 440 quilómetros quadrados de terrenos à Ordem de Cister, na figura de Bernardo, Abade de Claraval. Com esta decisão, fundava a Abadia de Santa Maria de Alcobaça, garantia que o enorme Couto iria ser ordenado e cultivado e beneficiaria da “influência” do abade junto da Santa Sé. O seu objetivo era consolidar e 'legitimar' a independência do reino. Em 1178 começou a erguer-se o atual Mosteiro, já depois de os monges conceberem um engenhoso sistema hidráulico: uma conduta servia o mosteiro de água potável e uma levada feita a partir do Rio Alcoa fornecia água corrente para limpezas e rega.

A igreja replicou a planta da casa-mãe, a Abadia de Claraval, em França. Tem 106 metros de comprimento – a terceira maior igreja cisterciense a ser construída na Europa e a segunda maior subsistente -, foi o primeiro exemplar do gótico português e tem uma especificidade única: as três naves à mesma altura, o que era uma proeza tecnológica inédita na europa medieval, explica Ana Pagará. Deixava entrar muita luz branca, pureza refletida também na simplicidade das linhas, proibição de artifícios e nos motivos sobretudo naturalistas.

O circuito pago inicia-se na Sala dos Reis. Em cima veem-se estátuas de dois metros de altura em terracota, representando os reis de Portugal (não constam os três Filipes, espanhóis). D. Afonso Henriques aparece ao centro, ladeado pelo Papa e S. Bernardo do Claraval, que o coroam. Entra-se, de seguida, no Claustro de D. Dinis, uma “obra-prima do gótico português”. Era o centro nevrálgico do Mosteiro, à volta do qual tudo se organizava. Entre na Sala do Capítulo, onde o abade lia todos os dias um capítulo da Regra de São Bento, o texto que estabelecia as normas de vivência dos monges. A seguir vem o Parlatório, onde se instalou uma loja. Aqui, o prior dava instruções de trabalho aos monges, sendo o “único sítio onde o monge podia quebrar o voto de silêncio”, para responder ao prior. Pode subir ao piso superior do Claustro de D. Dinis, através do enorme Dormitório comum.

Na Sala dos Monges funcionava o scriptorium de Alcobaça, onde se copiavam textos, faziam iluminuras e construíam livros. Preservaram-se quase 500 códices iluminados, guardados na Biblioteca Nacional de Portugal. Na ala norte do Claustro de D. Dinis fica a Cozinha do século XVIII, com uma chaminé de 25 metros assente em colunas de ferro fundido e um tanque no chão que permitia lavar os utensílios e o próprio pavimento! No Refeitório, repare no locutório onde um monge lia as sagradas escrituras durante a refeição. Pode subir as escadinhas e pedir para lhe tirarem uma foto.

Núcleo barroco e a cidade

Existe ainda um núcleo acessível com um bilhete próprio. A Sacristia Nova guarda móveis, escultura e pintura dos séculos XVII e XVIII. De planta circular e decoração barroca, a Capela Relicário foi construída no século XVII e albergou as relíquias que pertenciam à comunidade de Alcobaça. Foi totalmente revestida com um retábulo redondo barroco, de talha dourada e em 360°. Tem 89 esculturas-relicário em terracota, representando os santos da devoção cisterciense. Já a Capela do Desterro é uma obra de “barroco total” com um portal com colunas salomónicas, talha dourada e azulejaria retratando a Fuga para o Egito da Sagrada Família.

Em Alcobaça, visite o Parque Verde, o Jardim do Amor e o Museu do Vinho de Alcobaça (€4, grátis ao domingo). Almoce no restaurante António Padeiro e prove os doces conventuais da Pastelaria Alcôa, como a cornucópia e a coroa de abadessa, e um cálice de Ginja MSR de Alcobaça. Conheça a Vila de Aljubarrota e o Mosteiro de Santa Maria de Coz, que acolheu religiosas cistercienses e pode vir a ser classificado como Monumento Nacional. As visitas são feitas pelo Projeto Coz'Art (Tel. 969642970): espreite a sua loja e oficina, onde se trabalha o junco. Famosas são também as cestas de junco da Toino Abel, feitas à mão na aldeia de Castanheira. Além dos tecidos a metro, na loja Made In Alcobaça há peças de autor inspiradas nos padrões das Chitas de Alcobaça. Para descansar tem o Challet Fonte Nova (desde €90), o Your Hotel & Spa Alcobaça (desde €75), o Real Abadia Congress & Spa Hotel (desde €75) e o glamping do Parque dos Monges (desde €90), na Lagoa das Freiras.

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