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Boa Vida

Jorge Rebelo de Almeida - “Hoje, o mais importante em qualquer hotel é a internet”

Photographer: Fernando Picarra

Quando teve conhecimento da atribuição do Prémio Carreira 2020, disse que a distinção não era sua. De quem é?

Na vida, não há coisas individuais. Tudo o que acontece na vida é fruto de um coletivo, e, neste caso, o Prémio Carreira 2020 é o resultado do esforço, do empenho e do trabalho de todos os que fazem do Grupo Vila Galé uma grande empresa. Gente que trabalha com muito amor e muita dedicação, mas sobretudo, ao longo de muitas horas, também com grande prazer, uma vez que isso só se consegue quando se tem gosto naquilo que se faz.

Este ano, o grupo vai abrir duas novas unidades em Portugal, uma em Manteigas e outra em Alter do Chão. O interior é a nova joia do turismo em Portugal?

Não. Acredito, sim, nas potencialidades do interior e que, genericamente, é uma pérola que está mal explorada e mal aproveitada. Só não é a joia da coroa do turismo porque é muito mais difícil viabilizar um investimento em Alter do Chão, em Elvas ou em Manteigas do que fazer mais um hotel junto ao mar. Para um empresa como a nossa, que tem nove unidades no Algarve, fazer mais um hotel nessa região do país são favas contadas. Agora, a pergunta a fazer é se é mais importante para a economia do país fazer mais um hotel no Algarve ou se é mais importante desenvolver estas pérolas do interior... Eu considero que é desenvolver o interior, mas na verdade é muito mais difícil, porque ninguém vai a Alter do Chão de passagem. É uma terra lindíssima, mas não fica a caminho de nada. Podíamos estar a investir no interior por motivos perfeitamente atendíveis, como a coesão social ou a solidariedade, mas, de facto, acho que há potencial de negócio. O retorno não é tão imediato, mas chega-se lá.

Já disse publicamente que investir no interior é complicado, também por causa da burocracia. A regionalização pode ser a solução?

Defendo, sim, a descentralização e uma reorganização administrativa do país, em que o número de câmaras diminua para um número razoável. Só no distrito de Portalegre há 15 câmaras municipais. Para mim, fundir várias câmaras e fazer, por exemplo, só cinco era a melhor solução. Seriam mais poderosas, mais competentes e mais bem estruturadas. Agora, não há necessidade de regionalizar para criar mais órgãos políticos.

Ainda há margem para o turismo crescer em Portugal?

Há. Mesmo sem contar com o interior, onde há imensa margem para crescer, todo o litoral, por exemplo, o alentejano, tem ainda espaço para o turismo. Lisboa ainda pode crescer, o Porto também, o que é preciso é melhor organização. E há cidades no interior com grande potencial. E não é por falta de estradas que não chegamos lá. A nossa maior falha é o caminho de ferro.

Como alternativa a um segundo aeroporto em Lisboa?

Nunca. Sou sincero e, em relação ao segundo aeroporto, vejo com alguma preocupação a parte ecológica. Pela saúde pública e pela poluição, entre outros fatores, mas penso ser uma necessidade imperiosa. Compreendo que, por causa da crise, tenhamos parado com o projeto do TGV, mas temos de o retomar, porque tem de haver mais do que uma alternativa. Temos de ter boas estradas e bom transporte aéreo, o que não podemos deixar de ter é bom transporte ferroviário. Há muita gente que não gosta do avião, que odeia os aeroportos.

Deveria existir um plano estratégico para o turismo ou um pacto de regime entre os principais partidos?

Um plano estratégico era importantíssimo, não só para o turismo mas para todo o país. Há reformas urgentes, como a da reorganização administrativa, a fazer. Se calhar, em vez de 300 e tal câmaras municipais, deveríamos de ter só 200, mas fortes, preparadas e com capacidade para atender às necessidades das populações. Portugal vai vivendo, mas estou muito pessimista, porque acho que podíamos ser um país de luxo. Não temos riqueza, mas temos pessoas com qualidade. Às vezes, o que temos de pior é quem manda no país. A começar por quem manda nas empresas, que não consegue tirar o melhor da capacidade dos portugueses, que cresceu muito nos últimos anos. Hoje, estamos muito mais desenvolvidos do que alguma vez fomos. Veja-se a imagem exterior que há da hotelaria. E isso deve-se a quê? Às instalações? Claro que sim. Mas deve-se, sobretudo, às pessoas!

Desde 1988 já inaugurou 34 hotéis e resorts em Portugal e no Brasil. O que é que ainda o motiva?

Sempre me motivou este processo de chegar a um local, imaginar o que se pode fazer ali e deitar mãos à obra até se tornar realidade. Ainda hoje me envolvo muito na arquitetura, na decoração, no desenvolvimento dos novos hotéis. Tudo isso me dá muito gozo.

O que não pode falhar num bom hotel?

Hoje, o mais importante em qualquer hotel é a internet. As pessoas são viciadas na internet, ligam mais a um bom acesso à internet do que ao facto de a cama ser boa ou má ou se a comida é boa ou se é má. Também gosto de uma boa decoração, de um bom hotel temático e que tenha vida própria, que não seja apenas um espaço para dormir. Defendo que devemos valorizar o que é português para nos diferenciarmos de outros destinos. O próximo hotel que vamos abrir em Manteigas é dedicado aos “Mitos, Lendas, Costumes e Tradições” das regiões serranas de Portugal, que é um património único no mundo. Neste contexto, o que mais detesto são hotéis incaracterísticos, que podiam ser aqui ou em qualquer outro lugar, sem identidade ou sem matriz.

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