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Arte urbana, os novos roteiros das cidades portuguesas em 10 etapas

TheEmptyBelly_ 16 - Sara Pinheiro

De vandalismo a fenómeno “trendy” poucos anos separam a forma como a Arte Urbana ou Street Art é vista pelos habitantes dos bairros e cidades portuguesas. Hoje, já existem roteiros organizados para conhecer as mais emblemáticas e impactantes obras dos vários artistas nacionais, como VHILS ou Bordallo II, com carreira reconhecida além-fronteiras, entre muitos outros, entretanto, convidados a desenhar coleções para chancelas internacionais de renome. E não são poucos os colecionadores de arte rendidos que querem ter um pedaço de rua ilustrada em sua casa. Mas, basta ir deambulando pelas cidades para ter acesso às criações destes talentosos artistas. O Boa Cama Boa Mesa faz um roteiro prático por 10 cidades nacionais, onde a arte urbana é uma atração turística incontornável.

COVILHÃ
O Wool Fest - Festival de Arte Urbana da Covilhã deixou marcas na cidade, relembrando o passado, mas também catapultando o interior do país para a vanguarda das artes de rua. Bordalo II criou “Olhos de Coruja. Feita a partir de sucata é uma instalação que apela ao renascer da cultura no centro histórico da Covilhã. Foi considerada uma das 25 mais bonitas do mundo pelo Google Art Project, em 2014. Já BTOY inspira-se em fotografias antigas e tem numerosas criações artísticas na cidade, com destaque para o retrato do pastor no Largo da Nossa Senhora do Rosário. Por sua vez, Roc Blackblock fez uma intervenção no quartel de bombeiros da cidade e concebeu uma peça especial em homenagem aos soldados da paz. Estes são apenas alguns exemplos da riqueza do percurso de arte urbana da Covilhã, cujo mapa é disponibilizado um pouco por todos os estabelecimentos da cidade para cada um faça o seu roteiro de arte urbana.

ÁGUEDA
O “Umbrella Sky Project”, chapéus-de-chuva que parecem flutuar nos céus das ruas de Águeda, colocou a cidade na lista de “ruas mais bonitas do mundo”, eleitas pela CNN. Idealizado pela Sextafeira Produções para o festival cultural Agitágueda, o caminho do projeto faz-se pelas ruas Luís de Camões, Vasco da Gama, Jornal Soberania e José M. Veloso. Basta seguir o mapa disponibilizado pela autarquia. Mas, para além, dos já célebres chapéus de chuva, Águeda reúne um conjunto de obras de vários artistas que vale a pena conhecer, seja o mural Daniel Eime, aka The Caver, que retrata o rosto de Manuel Alegre, na Biblioteca com o nome do poeta ou a “Lenda da Ponte do Alfusqueiro”, na Rua Fenando Caldeira, do renomado Mário de Belém, assim como do, já famoso internacionalmente, Bordalo II, o artista que transforma lixo em arte, neste caso com a instalação “Pisco”, na Rua 5 de Outubro. O Festival Agitágueda 2020 acontece de 4 a 26 julho.

AVEIRO
Aveiro tem vindo a transformar-se numa galeria de arte a céu aberto sem que nenhum festival o potenciasse. Foram os artistas que criaram esta forma de dar a conhecer a cidade. O mural de Fábio Carneiro, tatuador de profissão, despoletou a admiração pelas artes de rua na cidade dos moliceiros, com a sua pintura em homenagem ao “Tubarão Atita” (Eduardo Raposo Rodrigues de Sousa), professor de natação e “tubarão do mar da Ria de Aveiro”, homem que ensinou muitas gerações a nadar. Na rua Dr. António Vicente, duas obras para conhecer, as intervenções assinadas por Alexandre Farto (VHILS) e António Conceição. O “Menino da Lágrima”, de Lucky Hell, está na descida da rua Carlos Aleluia. Também a Rua dos Marnotos é uma rua de “street art” em que podemos ver trabalhos de Artur Lobo (Zooter) e Dalila Monteiro (Ratu), dois artistas com várias pinturas na cidade de Aveiro. Pode seguir o Roteiro de Arte Urbana em Aveiro | Alma Aveirense, no google maps.

ESTARREJA
Em setembro de 2016, as ruas de Estarreja transformaram-se num museu com a primeira edição do ESTAU - Estarreja Arte Urbana, um festival que colocou a Arte Urbana em diálogo com edifícios, pessoas e natureza, através de murais, instalações, workshops, filmes, palestras, visitas guiadas e música, tudo com a participação artistas nacionais e internacionais. Nasceu um Roteiro de Arte Urbana para seguir que contempla mais de duas dezenas de obras de artistas, entre portugueses e estrangeiros. Foi no Parque Municipal de Antuã, junto do antigo mercado, que tudo começou. A partir de desperdícios e lixo industrial, Bordalo II voltou a surpreender com um gigante guarda-rios, pássaro da região. Diogo Machado, aka Add Fuel, transformou um posto da EDP numa bela obra de arte. Akacorleone (Pedro Campiche), inspirado em Egas Moniz, deixou “Rising Sun” em Estarreja. O roteiro está disponível online, mas podem marcar-se visitas guiadas.

PORTO
O Programa de Arte Urbana do Porto (2014) lançou as bases de um roteiro que não para de crescer e transformar a paisagem da cidade. Por força desta iniciativa, foram já realizadas 80 intervenções artísticas no espaço público. O circuito pelas obras, interrompido em 2019, será retomado em 2020, pela Ágora, com nova curadoria. A Rua da Madeira é o ponto de partida, para já. Num painel de 3000 azulejos lê-se a pergunta – “Quem és, Porto?”, um projeto de “Mais Menos” em que cada um dos azulejos feitos em workshop na Escola Superior de Educação, tem a visão dos participantes sobe “aquilo que é o Porto”. Depois vemos “Clouds”, dos italianos Sten & Lex, que reproduzem as nuvens da cidade. Na Trindade, ao lado da estação de metro, vemos o pai de Mr. Dheo a pintar a Torre dos Clérigos com uma lata de spray. Observe o Mural Coletivo de Restauração com artistas portugueses, brasileiros e venezuelanos, incluindo, a título de exemplo, “Douro Finest” de Vírus, “Horteiro de Adorações" de Heitor Corrêa e “Identidades do Porto” de Sabrina Lima ou, na Rua das Flores e no Largo de S. Domingos, ver as caixas da EDP de KINO e Coletivo Arte Sem Dono, ambos portugueses.

LISBOA
Lisboa é naturalmente palco das artes de rua de forma quase massiva, sendo as manifestações artísticas particularmente eficazes quando se trata de interagir com a população em zonas urbanas, mas também de complementar a oferta em zonas de cultura alternativa como é o caso de Marvila ou ainda simplesmente de tornar mais bonitas paredes com exposição privilegiada que simplesmente podem ser objeto de intervenções artísticas enriquecedoras para a cidade. A galeria Under Dogs desde sempre acompanhou os artistas de rua, nomedamente VHILS, e disponibiliza tours de arte urbana com guia, que aborda as histórias e as técnicas por detrás das peças. Akacorleone, Filipe Pantone, Mais Menos, WK Interact, Pichiavo, Shepard Farey, Pichiavo, VHILS são apenas alguns dos artistas cujas obras podem ser admiradas na capital, em especial em Alcântara e Marvila, mas também um pouco por toda a cidade.

ALMADA
São vários os eventos ligados às artes de rua em Almada. O Concurso de Graffiti, em 2009, o Projeto Arte com Responsabilidade, em 2013, e, em 2017, no âmbito do Festival Urbano, uma Mostra de Graffiti, na Cova da Piedade, juntando várias vertentes da cultura urbana música, dança, skate, e uma zona de street food. E esta zona hip da Cova da Piedade que conduz ao Mercado da Romeira tem particular interesse. A pintura do artista Smile é, sem dúvida, uma das mais marcantes para quem entre as várias obras, que podem ser admiradas, dando nova vida aos edifícios industriais abandonados. Outro exemplo, num estilo completamente diferente, é o mural sobre igualdade de género de Super Van (Vanessa Teodoro), conhecida hoje pelas colaborações na área da moda, por exemplo, mas também pelas pinturas nos elevadores da estação de Entrecampos. Bordalo II, Skran e Odeith são outros nomes cujos trabalhos podem ser vistos na Costa da Caparica e Romeira. Na Lisnave existem ainda as criações de VHILS, feitas para o teledisco dos U2.

LAGOS
O ARTURb é um projeto desenvolvido pelo Laboratório de Artes Criativas (LAC) que reúne alguns dos nomes mais importantes da arte urbana como ROA, BEZT, SAINER, C215 e ARYZ. O circuito de Arte Urbana de Lagos & Atelier de Stencil parte do emblemático edifício histórico, a antiga cadeia de Lagos, hoje espaço cultural e de experimentação artística. Os participantes são desafiados a desvendar mensagens implícitas nos murais da cidade de Lagos, além de outras particularidades históricas e artísticas. O programa integra uma atividade de experimentação e criação orientada por um artista convidado. São disponibilizados um mapa do roteiro e materiais como stencil, tintas, spray e papel. No final, o participante fica com o resultado do seu trabalho criativo. Nos dias 17 e 18 de janeiro decorrem os LAC Open Days.

CÂMARA DE LOBOS
Na pitoresca vila piscatória de Câmara de Lobos (Madeira), a arte de rua tem especial impacto ao nível social, mas também da sustentabilidade. O Prémio Gulbenkian Sustentabilidade 2019 foi atribuído ao Teatro Metaphora – Associação de Amigos das Artes, que, desde 2015, desenvolve a iniciativa Green Steps e assim tem dinamizado diversos projetos artísticos, sempre aliados à sensibilização ambiental. No primeiro ano de atividade, o projeto reutilizou cerca de 2600 garrafas PET e ainda CDs inutilizados, transformando-os em flores. Um ano depois, resgataram 133 tambores de máquinas de lavar, que transformaram em candeeiros. Em 2017 e 2018, ilustraram enormes telas, que cobrem agora portas e janelas das ruas, com os rostos de Cristiano Ronaldo, Bob Marley, Winston Churchill ou Chaplin, utilizando como recurso cerca de 25.000 latas de refrigerantes. A Câmara também receberá uma Menção Honrosa do Prémio “Melhores Municípios para Viver”, através do projeto “Ornamentação de Ruas com Arte Reciclada - O São Pedro de Câmara de Lobos, uma Festa devolvida às Pessoas”.

FUNCHAL
O projeto "Arte das Portas Abertas", na Rua de Santa Maria, está carregado de simbologia e representa a ideia de “abrir as portas da cidade do Funchal à arte e à cultura”, de acordo com a apresentação divulgada acerca do projeto. A primeira porta a ser pintada na rua foi no dia 6 de abril de 2011, no número 77, pelo artista Mark Milewski. São lojas abandonadas, espaços em ruínas na Velha Zona da cidade de Funchal que ganharam nova vida, atraindo turistas, dinamizando toda a vida em redor e sensibilizando os locais para a importância da cultura. Estas intervenções incluem todas as artes visuais, desde a pintura à escultura, passando pela fotografia, o vídeo, a música e a escrita. Tanto podemos ser surpreendidos por uma porta com o desenho do Principezinho como por uma outra alusiva ao tema do mar.

Este artigo foi publicado originalmente na edição do Expresso Diário de dia 9 de janeiro de 2020.

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