Take-away

Sem luxúria, a “Última Ceia” de Bertílio Gomes tem petiscos com sabor a Algarve para partilhar

Na recriação da mais famosa refeição da história, o chef da Taberna Albricoque preparou um menu para comer à mão, mediterrânico, essencialmente composto por peixe e vegetais

Não há refeição mais estudada do que esta, a que juntou à mesma mesa Cristo e os 12 Apóstolos, após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e onde, com os seus discípulos, dividiu uma refeição antes de ser crucificado no final da semana. Imortalizada no fresco de Leonardo da Vinci, assume especial importância por, durante a ceia, Jesus prever a traição de Judas e a negação do apóstolo Pedro antes da madrugada do dia seguinte. É ainda, nos tempos que correm, a base da Eucaristia, também conhecida como “Comunhão”.

Tartaro de Carapau

Sinais dos tempos, este ano, a “Última Ceia” recriada por Bertílio Gomes, será servida em take-away. Por força da pandemia, esta iniciativa do Canal História vai ser transmitida durante a Semana Santa, a partir do dia 26 de março, às 22h10, com repetições até à Páscoa, dia 4 de abril, não havendo a possibilidade de a apreciar na Taberna Albricoque em Lisboa, como aconteceu em anos anteriores. Durante a chamada Semana Santa, está disponível para take-away, (€40 para duas pessoas) tendo a recriação de acontecer na mesa da sala de casa.

Na proposta da “Última Ceia” de Bertílio Gomes, era impossível não aparecerem os sabores do Algarve. A ligação mediterrânica assim o justifica, tendo o chef optado por um menu de partilha, porque acredita que "a “Última Ceia” foi principalmente um momento de encontro e de partilha onde o que se comeu foi secundário”. Bertílio Gomes investigou muito sobre a época, é católico, e concluiu que Jesus Cristo e os restantes apóstolos tivessem uma alimentação mais à base de elementos vegetais, uma vez que, sendo esta celebração da Semana Santa, “assinalada pela abstinência de carne, por ser considerada uma luxúria e um alimento impuro para o corpo".

Tártaro de beterraba com grão e ervas amargas

Inspirando-se nestes dados, faz a ponte para a atualidade considerando que “o tema é muito atual e vai ao encontro das novas tendências alimentares de muitas pessoas que procuram uma alimentação mais saudável, centrada no mundo vegetal, sobretudo agora, por estarmos a viver uma pandemia global Covid-19, que se pensa ter sido originada na ingestão de animais doentes. Pegando nestes factos segui a minha recriação sem perder as bases históricas”.

Morcela Vegetal

Nesta versão da “Última Ceia” será servido Tártaro de beterraba com grão e ervas amargas, porque, diz o chef “O grão é uma leguminosa referida na Bíblia e existem várias fontes que mencionam ser um dos alimentos base da alimentação da época. O pão de grão é feito com farinha de grão e à semelhança do pão ázimo não é fermentado. As ervas amargas são agrião, azedas, chicória e dente de leão e estão presentes na Bíblia. Já eram consumidas pelos Hebreus no Egipto desde o tempo de Moisés”. As Lentilhas com queijo de cabra, tomate confit e cale, foram outra das escolhas porque “as lentilhas são igualmente uma leguminosa mencionada na bíblia, a cabra é um dos animais permitidos e consumidos naquele tempo, mas sobretudo eram criados para retirar o seu leite que era muito apreciado”.

Lentilhas com queijo de cabra, tomate confit e kale

Já as Favas e trigo em pétalas de cebola assada, surgem porque “tanto o trigo como as favas são alimentos bíblicos, e bastante representativos da cultura portuguesa” e a Morcela Vegetal “é um prato criado por mim e disponível no menu da Taberna Albricoque regularmente. Consiste numa salada de cenouras assadas, temperada com cominhos - uma especiaria muito utilizada no Médio Oriente – e azeitonas, também ela um ingrediente bíblico”. Quanto ao Tártaro de carapau com figos secos e amêndoas, Bertílio Gomes diz que “O peixe é um dos símbolos da catolicismo já que alguns dos apóstolos eram pescadores, este carapau é curado numa salmoura que é uma técnica conservação dos alimentos que já se aplicava nessa época”. Será um dos pratos onde, refere “existe uma grande afinidade da minha cozinha com este produto, visto que pratico uma cozinha com uma grande influência do Algarve”. Termina com Sorvete de vinho tinto com especiarias e frutos vermelhos numa rabanada de folar da Pascoa, escolha justificado por o Folar da Páscoa ser “uma das preparações culinárias da doçaria Portuguesa mais representativas da Páscoa que servirá para fazer uma rabanada que também é uma sobremesa tradicional, o vinho é um dos dois elementos referenciados na Última Ceia e as especiarias são um elemento predominante na cozinha do médio oriente”. Todos os petiscos serão acompanhados de Pão ázimo.

Rabanada da folar da pascoa com sorbete de vinho

O menu a “Última Ceia” está disponível na Taberna Albricoque (Rua Caminhos de Ferro, 98, Lisboa. Tel. 218 861 182), e pode ser acompanhado com vinho de Talha Sátiro Clandestino (€15). Henrique Sá Pessoa, Kiko Martins, Miguel Laffan, Miguel Castro e Silva, Vítor Sobral, Diogo Noronha ou Nuno Bergonse foram outros dos chefs que recriaram a “Última Ceia” para o Canal História.

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