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Restaurante nos Açores deixa de servir lapas para “preservar os recursos naturais”

PEPE BRIX

A decisão surge no lançamento da carta de verão do Cella Bar, na ilha do Pico, e em pleno período reservado à apanha das lapas, um petisco muito apreciado nos Açores. Justifica-se com a vontade de promover o equilíbrio do ecossistema.

No dia em que abriu mais uma época de apanha de lapas nos Açores, a 1 de junho, o Cella Bar, na ilha do Pico, anunciou na sua página de Facebook que não as vai incluir na nova carta de verão. A decisão apanhou de surpresa os apreciadores deste saboroso molusco, mas é baseada na ideia de que “os recursos naturais têm de ser preservados”.

Este ano sentimos que devíamos fazer esta pausa no consumo de lapas para ajudar a população a perceber que não podemos estar todos os anos a retirar este recurso natural. Podemos consumi-lo, sim, mas também temos de o valorizar”, comenta ao Boa Cama Boa Mesa Filipe Paulo, que divide a sociedade do espaço com Fábio Matos e Mauro Fernandez. Olhar para os oceanos e a matéria-prima “com mais cuidado” é uma urgência: “É um recurso natural que não pode ser explorado todos os anos da mesma forma, sob pena de um dia querermos e não o termos”.

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A época de defeso em que ocorre a reprodução das lapas compreende o período de 1 de outubro a 31 de maio e esta medida trata-se, no fundo, de dar mais tempo ao ecossistema para se reequilibrar. Filipe diz que a reação dos consumidores tem sido “quase inesperada porque tem havido muito apoio, as pessoas têm reagido de forma positiva”, mesmo numa ilha onde o molusco é muito popular e se apanha “para todo o arquipélago”. E a quem olhar para a medida como falta de apoio a quem se dedica à apanha no período certo, Filipe responde com um alerta: “Não posso estar eternamente a apoiar quem apanha se esse recurso corre o risco de se perder”.

A preocupação em relação às lapas podia estender-se às cracas e ao atum, já que “a exploração intensiva do atum vai levar a resultados menos bons”, antevê o empresário. As conservas de atum que serve no Cella Bar, por exemplo, são “feitas à mão” e o atum apanhado de forma artesanal “com salto e vara”, ou seja, à mão. Uma técnica difícil, mas mais seletiva e amiga do ambiente.

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No Cella Bar, as lapas costumam ir um pouco à chapa para o molusco descolar da concha. Depois é adicionado molho de manteiga e alho, acompanhado com um gomo de limão. Uma delicia que voltará, a seu tempo. Por enquanto, aproveite os destaques da carta de verão como o tataki de atum dos Açores (€19), que é levemente braseado e fatiado “para manter as suas propriedades”. Uma alternativa é o polvo (€19,50) assado com batata assada, esparregado e cenoura no forno. Nas carnes, o entrecosto (€16) assado lentamente com molho barbecue e batata frita caseira. Para picar tem o pica-pau (€13) e as tábuas de queijos ou enchidos (€12,50). Nas bebidas, destaque para os vinhos do Pico e os mojitos (original, de amora ou de maracujá), além dos gins açorianos, como o Rocha Negra (€9), do ice tea e limonada da casa.

O Cella Bar (Rua Da Barca, Madalena, ilha do Pico, Açores. Tel. 292623654) é um dos edifícios mais fotografados dos Açores. Dependendo do ângulo, a sua arquitetura contemporânea, de madeira, convoca as formas de uma baleia, do arquipélago, de uma pipa e mesmo dos rochedos. Reabriu no início de março e, além do bar e sala interior, tem uma esplanada no terraço para descontrair a ver o mar. A partir da próxima semana, abre todos os dias, das 12h às 00h, em linha com as diretivas oficiais.

Este espaço passa também a usar “maioritariamente produtos ecológicos” na limpeza diária, à luz do turismo sustentável que defende. A linha da marca portuguesa EcoX baseia-se na ação “de uma enzima que transforma o óleo alimentar usado em detergente”. E promove a economia circular, já que quem fornece o óleo “depois tem um desconto nos detergentes”, explica Filipe.

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