Boa Mesa

António-Pedro Vasconcelos, André Magalhães e Leonel Pereira prestam homenagem a José Vila, criador da Adega Vila Lisa

Mais do que clientes, eram amigos do artista que também foi cozinheiro e que recolocou a comida tradicional algarvia na bocas do mundo

São testemunhos sentidos de homenagem a um amigo que, ao deixar o mundo dos vivos, deixou também a gastronomia algarvia mais pobre. António-Pedro Vasconcelos, realizador, André Magalhães, chef da Taberna da Rua das Flores e Leonel Pereira, um dos mais premiados chefs nacionais, agora no Check-In em Faro, prestam uma última homenagem a José Vila, colocando por palavras, ao Boa Cama Boa Mesa, os fortes sentimentos que nutriam pelo homem, pelo artista e pelo cozinheiro que criou a Adega Vila Lisa e colocou a aldeia da Mexilhoeira Grande no mapa gastronómico nacional.

O Vila mudou a minha vida. Por António-Pedro Vasconcelos

Gonçalo Rosa da Silva

Eu não dispenso viver numa terra onde tenha o mar no meu horizonte. Por isso, desde que me fiz à vida, Lisboa passou a ser a minha casa e o Algarve o meu destino de férias. Isto nos anos 60, quando Albufeira era um deserto que se assemelhava ao paraíso, e se acampava na praia! Depois, quando foi descoberta por Cliff Richards e Paul McCartney, a zona interior do Sotavento ficou na moda e foi devastada pelo turismo chique, pelos hippies sofisticados e pelos “patos bravos”. Durante uma década mudei-me para Moledo, onde a água era mais fria, mas a praia mais selvagem e a vida mais calma.

Até que um dia, um amigo meu, o José Júdice, que tinha uma casa na Mexilhoeira Grande, me convidou para ir lá passar uns dias e me levou à tasca improvisada de um amigo dele, o Vila, que, com um camarada de sempre, o Lisa, transformaram uma adega numa casa-de-pasto simples, despretensiosa mas acolhedora e convivial, a que chamaram Vila Lisa, que nos servia a verdadeira cozinha algarvia, desde o xerém de berbigão às migas gatas, da raia de alhada às favas com peixe frito, que me prenderam ao local pelos sabores genuínos da serra algarvia - o Algarve não é só mar - ao mesmo tempo que descobri as delícias das praias tranquilas do Barlavento, de Lagos até Vila do Bispo!

E, desde os anos 80 até hoje, fixei-me nessa zona mais ocidental da região, que, no meu itinerário, fica uns quilómetros à volta da Adega Vila Lisa, que, em pouco tempo, se tornou um destino dos verdadeiros amadores de boa mesa. De dia, ia à praia do Alvor, onde encontrava a companhia de Mário Soares, para dar uns passeios e uns mergulhos; mas, sobretudo, para fazer horas para jantar no Vila Lisa, ao ponto de um amigo meu comentar que eu era “a única pessoa que ele conhecia que passava férias num restaurante.”

A gula era tal que, uma noite - mais precisamente no dia 28 de agosto de 1988 -, decidi escrever-lhe um soneto na toalha de papel da mesa, que ele guardou preciosamente e que resume o meu apreço, encantamento e amizade pelo homem que agora nos deixou, mas que nunca será esquecido porque era um amigo que sabia que a mesa era um local de convívio, onde se celebra a amizade, e nos ajudou a redescobrir a verdadeira cozinha algarvia.

Aqui vai o soneto, tal como saiu!”

Vila, in memoriam – Por André Magalhães

Divulgação

O Vila foi um pequeno grande homem, que se dizia simples e de origens humildes mas possuía uma bagagem cultural elaborada e complexa, um olhar inquisitivo e sensível e uma bonomia que escondia uma grande nobreza de caráter e não deixava ninguém indiferente. O Vila cozinheiro-artista-anfitrião foi um grande embaixador da gastronomia algarvia, era também bon-vivant e boémio, tinha mais mundo do que a sua Mexilhoeira Grande e as suas incursões a Lisboa eram memoráveis.

Em 2011 tive o grato prazer de o acolher no Clube de Jornalistas para uma “residência artística” em que expôs os seus quadros nos salões da Rua das Trinas e fez as delícias dos convivas que durante três dias encheram as mesas do restaurante ao almoço e ao jantar. Quando o Vila chegou de armas e bagagens, transportando absolutamente todos os ingredientes para o seu “menu de degustação avant la lettre”, trazia vários garrafões de plástico de cinco litros, uns tinham àgua de cozer lingueirão, parte importante do xerém, outros tantos tinham o que eu pensava ser àgua do mar, talvez para depurar alguns bivalves, mas não, era medronho. Na grande cozinha da cave a mise-en-place começava por volta do meio dia com um gin-tónico e um charuto, a conversa era sempre animada, cheia de detalhes e truques sobre a confeção de cada prato, sobre a essência de cada ingrediente. Após o serviço do almoço o Vila saía para ir descansar voltando pouco antes do serviço de jantar, acendia um charuto no jardim e subia com o seu balão de gin para falar com os convidados que visitavam a exposição de pintura. No fim do jantar depois dos queijinhos de figo e dos medronhos despedia-se e saía. Eu ficava a arrumar à pressa para ir ter com o Vila ao Snob onde continuávamos à conversa por mais um par de horas.

Hasta la vista Vila.

A gastronomia regional do Algarve ficou mais pobre – Por Leonel Pereira

Tive oportunidade de comer e conversar várias vezes com este “mestre” das artes como lhe costumava chamar. Pois o seu conceito de restaurante, confundia-se com o artista pintor e o artista cozinheiro. Enquanto cozinheiro, sentia prazer em recriar os pratos que comia enquanto criança daquela pequena localidade, que lhe traziam à mesa as boas memórias dos seus pais e avós. Era incrível como conseguia dividir um único prato como o “Cozido de grão”, em vários momentos de prazer e excluindo quase na totalidade a existência de qualquer quebra ou perda. No fundo, era a verdadeira cozinha de subsistência do passado, que podemos chamar de “mediterrânica” e que teve todo o mérito, em torná-la confortável no presente.

Que descanse em paz.

António Pedro Ferreira

Acompanhe o Boa Cama Boa Mesa no Facebook, no Instagram e no Twitter!