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Mesas da política: restaurantes onde (também) se decide o futuro de Portugal

Sem desvendar as intenções de voto (sobre qual destes é o melhor restaurante), a equipa Boa Cama Boa Mesa percorre as salas de alguns dos espaços gastronómicos que ajudam a contar a história, passada e presente, do país político. Foram selecionados oito, mas poderiam ser muitos mais. São verdadeiras mesas do poder, em restaurantes onde se garante não existirem ouvidos nas paredes…

Pabe
Recentemente renovado e com novo proprietário, o Pabe (Rua Duque de Palmela 27 - A, Lisboa. Tel. 213535675) quer recuperar a influência de outros tempos, em que era considerado como uma extensão do Expresso, que ali ao lado tinha sua sede e redação. As entrevistas “Almoço no Pabe” podem regressar em breve confirmando ser esta uma verdadeira mesa da política. Várias personalidades, como Francisco Pinto Balsemão, têm mesa preferida no restaurante, por onde passaram recentemente Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Ao final da tarde, uma cerveja e um croquete de rabo de boi ajudam a conversas soltas. Ao almoço, nada melhor que uma mesa discreta para provar a Sapateira do Pabe e o Arroz de garoupa. A boa garrafeira também ajuda na discussão política.

Café de São Bento
A localização é (quase) tudo. A poucos passos, nunca perdidos, da Assembleia da República, e também da residência oficial do Primeiro-Ministro, o Café de São Bento (Rua de São Bento, 212, Lisboa. Tel. 913658343) é frequentado por deputados, nomeadamente do chamado Bloco Central, e membros do governo que encontram nestas mesas espaço para intensas discussões políticas, obviamente, acompanhadas por um Bife à Café de São Bento, um dos pratos mais emblemáticos do restaurante e de Lisboa. Tem a vantagem de manter as portas abertas pela noite dentro.

XL Restaurante
Comemorou recentemente 25 anos de existência, ao longo dos quais, pela proximidade ao Parlamento, serviu de quartel-general a muitos e longos jantares de conspiração política e outros de celebração. José Maria Aznar, então chefe de governo espanhol jantou e ficou à conversa com o primeiro-ministro português, António Guterres. Já Mário Soares só ali passou uma vez e revelou-se “uma desilusão” enquanto comensal, recordo Vasco Gallego: “Todos diziam que ele era um ótimo garfo, mas afinal revelou-se a pessoa mais esquisita que já conheci. Só comia arroz seco, detestava arroz malandrinho, não comia entradas, só sopa”. Um dos momentos mais inesperados da vida do XL (Calçada da Estrela, 57, Lisboa. Tel. 213956118) foi um jantar de animada cavaqueira entre Pedro Passos Coelho e António José Seguro, adversários políticos, unidos pela mesa.

A Travessa
Já na nova morada, na Madragoa, o restaurante A Travessa (Travessa do Convento das Bernardas, 12, Lisboa. Tel. 213902034) celebrou, em 2018, 40 anos de existência. Quatro décadas em que o jornalismo, a política e as artes sempre foram pratos fortes, dando ainda mais fama à ementa e à elegância do espaço. António Guterres, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e António Costa, antes ou depois do cargo, fazem parte dos primeiros-ministros que se sentaram nestas mesas. Também Paulo Portas e Assunção Cristas são clientes, independentemente do estado da nação. A ementa, elegante, aposta nos produtos nacionais com tratamento de inspiração francesa e belga, que a fundadora, Viviane Durieu, fez questão de dar a conhecer em Lisboa.

Varanda do Ritz
Num dos mais requintados e luxuosos hotéis da capital é natural que o restaurante receba os mais influentes empresários, banqueiros e políticos nacionais. Mais do que ao jantar, acaba por ser ao almoço, durante o famoso buffet servido pelo restaurante do Ritz Four Seasons Hotel Lisboa (Rua Rodrigo da Fonseca, 88, Lisboa. Tel. 213811400), que personalidades (nacionais e internacionais) de diversas áreas acertam agulhas sobre os desígnios do país. De José Maria Ricciardi a Luís Marques Mendes, cada almoço no Varanda do Ritz pode decidir a jogada seguinte…

Brasserie Sixty 6
Espaço desconhecido para a maior parte dos mais atentos ao evoluir da política nacional, o livro “Como Costa Montou a Geringonça em 54 Dias” garante que foi neste pequeno restaurante, instalado nas Galerias do Amazónia Lisboa Hotel, que António Costa cozinhou a inédita maioria governativa. Pedro Nuno Santos e Mariana Vieira da Silva terão sido dois dos vários conselheiros que, entre um olhar para ementa e outro para o futuro, acabaram por inventar uma receita política que, pelo menos, até domingo, dia de eleições, se mantém inalterada. A proximidade com a sede do PS tem feito da Brasserie Sixty 6 (Travessa da Fábrica dos Pentes 12, Lisboa. Tel. 213870230), liderada pelo chefe Thomaz Mascarenhas, num espaço de eleição para os dirigentes socialistas.

O Comilão
Pela proximidade à sede nacional do PSD, a cave do pequeno restaurante O Comilão (Rua Tomás da Anunciação 5A, Lisboa. Tel. 216074408) transformou-se numa extensão das salas de reunião dos social-democratas. Pedro Passos Coelho seguiu o exemplo de anteriores líderes e por ali comia muitas vezes. Garante-se que foi aqui, com a família, que Passos Coelho celebrou a tomada de posse como Primeiro-ministro. Por estes dias é Marques Mendes um dos notáveis que ocupa uma mesa ao almoço para acertar os detalhes dos comentários semanais que faz na SIC, dando continuidade a um hábito que adquiriu enquanto ministro de Cavaco Silva.

Café Convívio
E, como Portugal não é só Lisboa, é no ambiente acolhedor e informal do icónico Café Convívio (Rua Arquiteto Marques da Silva, 303, Porto. Tel. 226092303), no Porto, que Rui Rio relaxa da intensa atividade política como líder do principal partido da oposição. O presidente do PSD gosta de separar as águas, e é em ambiente próprio, e não à mesa, que habitualmente discute o que diz respeito à política partidária e nacional. Fiel às tradições da cidade Invicta, cujos destinos comandou entre 2002 e 2013, a Francesinha, com ovo e batata servidos à parte, é o seu prato de eleição nesta cervejaria emblemática da Boavista. Muito útil, a banca de jornais permite, logo à entrada, tomar o pulso à atualidade política…

Este artigo foi originalmente publicado na edição do Expresso Diário de 3 de outubro 2019.

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