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Inédito e surpreendente: restaurante português devolve estrela Michelin

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O chefe Henrique Leis, proprietário e chefe no restaurante Henrique Leis em Almancil, renunciou à estrela Michelin que ostentava desde o ano 2009. O chefe brasileiro, nascido no Maranhão, no Brasil, mas a viver em Portugal há 25 anos, enviou uma carta à delegação de Madrid do guia Michelin onde pede “à equipa do Guia Michelin a permissão para a entrega da Estrela Michelin a partir do ano 2020”. A carta foi enviada no dia 12 de junho e nela, Henrique Leis diz ter sido “com grande honra e prestigio que durante 19 anos eu e a minha equipa fizemos parte deste guia, no entanto, gostaríamos a prestar o mesmo serviço mas sem a pressão da manutenção da estrela”.

O caso de Henrique Leis não é novidade a nível mundial, outros chefes já renunciaram à distinção, no entanto, é a primeira vez que acontece em Portugal. Ao todo em território nacional há seis restaurantes com duas estrelas do guia Michelin e 20 com uma estrela. A nova lista será anunciada durante o mês de novembro. Ao Boa Cama Boa Mesa, Henrique Leis disse que a equipa do guia ia levar “em consideração o meu pedido”, mas assume que não sabe qual a resposta final”.



Henrique Leis
disse ainda que tomou esta medida porque “são 19 anos e quero ter mais liberdade e menos stress. São 19 anos, é muita coisa... Foi muito bom estes anos todos com a estrela, mas chega o momento em se tem de pensar... Quero cozinhar com mais liberdade, sem ter que esperar pelo carimbo de um inspetor da Michelin”. A decisão já estava tomada. Passou-lhe pela cabeça quando “fiz dez anos de estrela. Pensei quando fiz 15 e queria chegar aos 20”, mas achou que “19 e 20 é a mesma coisa, é menos um ano de sofrimento, de stress”. Assume ainda que “tenho a certeza que se não pedisse para renunciar ia continuar com a estrela este ano”.


Nos próximos tempos, Henrique Leis diz que vai “continuar a fazer a mesma coisa, não vai mudar nada, até porque eu não sei fazer diferente. Vou continuar com a mesma coisa, os mesmos produtos, a mesma equipa, tudo igual. Só que quero acabar com este stress. Cozinhar pelo gosto e também pela necessidade de manter o negócio”. A decisão era “um desejo antigo meu, era uma decisão que só faltava refletir melhor, conversar com as minhas filhas porque elas também estão a ajudar-me, e ponderar se vale a pena ou não. Com 19 anos já estou um pouco saturado dessa pressão, as minhas filhas também não querem, preferem fazer outras coisas com mais liberdade e eu vou ajudá-las enquanto puder”.



O chefe que agora abdica da estrela Michelin diz ainda ao Boa Cama Boa Mesa que “nunca quis, nem nunca tive o sonho de conquistar uma segunda estrela. Uma já é um peso que se tem e a despesa que se tem, os gastos... Com duas fica quase impossível! Eu não tenho um hotel, se fosse um hotel com muito dinheiro envolvido era uma coisa e não depende de vender comida, depende de outras coisas, de outras promoções, de quartos. E geralmente são pessoas com muito dinheiro e muitos negócios. Eu não tenho, só tenho este”.

Em março deste ano, quando o Boa Cama Boa Mesa visitou o restaurante Henrique Leis, viam-se os frutos de uma intervenção no espaço. Decoração atualizada e suavizada, mais luz natural e vista na sala do primeiro andar, zona onde há até uma esplanada exterior rodeada de flores. A sala do rés-do-chão também em tons mais claros e leves, mantendo o intimismo e os quadros da autoria do chefe. O esforço para melhorar o ambiente marcava pontos, bem como a simpatia e profissionalismo do serviço. Os pratos lembram telas: estão lá as explosões de cor, o jogo de texturas, a liberdade, a audácia sensível do artista. E, como nos diziam, “muita pesquisa do chefe para acompanhar as novas tendências” gastronómicas. As vieiras, raviolis de trufa e emulsão de ouriço e os ovos bio à la Coque com caviar fumado imperial aproximam mundos, revelam apreço pelas novas técnicas e exigência na seleção do produto (de qualidade, à época, bio...). Na carta havia ainda a desejada lagosta da costa algarvia com gel de côco e tuille de cappuccino, o supremo de pato novo de Barbarie, extravagâncias de chocolates, seleções de gelados e sorvetes caseiros, de queijos e sugestões de vinhos de sobremesa.



Nos últimos anos foram vários os chefes que disseram não à entrada ou permanência no guia Michelin. Marco Pierre White, devolveu as três estrelas que tinha e em 2018 recusou a visita dos inspetores no restaurante asiático The English House. Em 2017 foi Sebastien Bras, chefe gaulês, que cansado da pressão das três estrelas no restaurante Le Suquet, abdicou da distinção. Karen Keygnaert, a única mulher da Bélgica com uma estrela Michelin no Restaurant A'Qi recusou a distinção em 2016. Também Jo Bussels e Frederick Dhooge, do restaurante Huis van Lede, as recusaram, bem com Jérôme Brochot, do restaurante Le France. Na Escócia, o restaurante Boath House devolveu em 2017 a estrela Michelin que teve durante dez anos.


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