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Em Valverde, O Ricardo é sinónimo de cozinha familiar

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Entre antas, cromeleque e menir dos Almendres, além de outros vestígios arqueológicos da região, encontramos o restaurante O Ricardo, mais precisamente na freguesia de Valverde, uma pequena localidade, situada a cerca de 12 quilómetros de Évora.

Somos levados a conhecer este local por José Pedro Vasconcelos, o apresentador televisivo, ávido defensor do restaurante como uma morada de visita obrigatória. A curiosidade fica mais aguçada quando nos conta que, todos os dias, um senhor de 93 anos, conduz um Mercedes antigo até ao Ricardo, para almoçar ou beber um gin no terraço do restaurante. Talvez uma estória da terra ou do apresentador? Que motivo levará para alguém, depois dos 90, ir de carro ao Ricardo, religiosamente, sem falhar um único dia?

Pois bem, o restaurante O Ricardo revela-se um local à parte, desde logo pelo aspecto exterior. O nome do estabelecimento está gravado numa placa de pedra rectangular, de dimensão generosa, rodeada de uma trepadeira e ostenta ainda uma bandeira de Portugal. Lê-se uma inscrição “Restaurante O Ricardo, Quinta da Deserta - Aberto”. A entrada do restaurante com um portão de ferro, ladeado por duas pilastras de pedra mostra o caminho até à adega, mas é à esquerda, no primeiro piso da casa branca com listas azuis que encontramos a sala de refeições e o terraço.

A pedra, enquanto matéria, ocupa, aliás, um papel primordial não apenas na região, que procura promover os passeios arqueológicos devido aos numerosos vestígios, que indiciam que a zona foi habitada já no período do megalítico, como também, porque, até há bem pouco tempo, fazia parte do ganha pão de Ricardo Ramos, o proprietário do restaurante, outrora canteiro, que tem na quinta diversos exemplos da respectiva arte.

Ricardo Ramos plantou vinha (meio hectare) e construiu uma adega, onde produz o próprio vinho, que serve no restaurante, o tinto Bom Jesus de Valverde (€5/jarro e €8/garrafa). Ao centro da adega, que visitamos, está uma mesa de pedra com as iniciais de “RR” gravadas, rodeada por cadeiras de cortiça, com costas altas, tudo feito pelo próprio Ricardo. Um cenário curioso. O proprietário conta-nos que José Pedro Vasconcelos participou várias vezes na vindima da quinta e que quis saber como ali se fazia o vinho.

Ricardo e Adelaide Ramos compraram a Quinta da Deserta, com três hectares, há mais de 40 anos e abriram o restaurante há mais de duas décadas, tendo anteriormente sido proprietários de um café na vila de Valverde. O ambiente do restaurante é muito castiço e em consonância com o estilo encontrado na adega, com uma lareira aberta gigante ao centro da sala e com uma garrafeira feita a partir de um tronco retorcido.

Com 85 lugares, cada mesa tem uma jarra pequena com uma camélia colhida no jardim da quinta, um pormenor delicioso para quem adora tudo o que é espontâneo e, até certo ponto, revelador da candura de Adelaide Ramos. Numa das mesas, uma sobretoalha colorida com rebordo a crochet, corresponde a esta mesma ideia. Adelaide Ramos tem precisamente esse aspecto, doce e cândido. É quem assume a responsabilidade da cozinha e vem também à mesa, com a touca de cozinha posta, perguntar se, para começar, queremos provar uma patanisca.

A ementa é escrita à mão e, quando os pratos chegam à mesa, temos a clara noção de que seria assim que Adelaide cozinharia para a respectiva família. As propostas variam conforme as inspirações de Adelaide e de acordo com o que comprou no mercado. As Pataniscas de Bacalhau podem ser um prato principal acompanhado de Arroz de tomate (€10). Outros pratos de peixe sugeridos são a Poejada de bacalhau (€12) e a Sopa de tomate com peixe (€10). Dos pratos de carne constam o Cozido de grão (€10); o Ossobuco estufado (€11); os Lombinhos de porco grelhados (€13) e os Abanicos de porco grelhados (€11).

Noutros dias também há Caldeirada de borrego, Migas de espargos, carnes grelhadas de porco preto ou Borrego assado no forno, Sopa de cação e Burras de porco preto (preços entre €10 e €16, para o borrego). Para sobremesa conte com uma óptima Torta de laranja, mas também com Sericá; Pêras cozidas em Moscatel e, em tempo deles, Marmelos assados com geleia e romãs (preços entre €2,50 e €3).

No restaurante O Ricardo (Rua da Quinta, Évora, Tel. 266711115) pode-se tomar um café no terraço ou na mesa sob uma pérgula, junto a uma fonte de pedra, enquanto se admira a vinha e a restante planície ou escuta o silêncio. No dia em que lá estivemos, não conseguimos ver o cliente regular de 93 anos, mas Adelaide Ramos confidenciou-nos que sim, ele costuma aparecer.

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