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Jantares Queirosianos: Mais do que uma refeição, uma viagem no tempo

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“Houve então um silêncio. As colheres e prata remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam os longos canudos brancos e moles do macarrão. O Conselheiro disse: −Não sei se gostarão de sopa. Eu adoro macarrão!” In O Primo Basílio

Se ao ler "A Cidade e as Serras", de Eça de Queirós, conseguiu sentir o prazer imenso da personagem Jacinto quando finalmente recupera o gosto pela vida e saboreia a cozinha do campo, portuguesa e genuína, existe agora uma oportunidade de ir mais longe e entrar fisicamente na obra, aliás, nas várias obras do escritor português...

Todos aqueles que marcarem presença nos Jantares Queirosianos, organizados pela Fundação Gulbenkian, em Lisboa, nos dias 15 e 22 de janeiro, e ainda 16 de fevereiro, sempre pelas 20h00, no Foyer, vão ter a oportunidade de viajar no tempo e sentar-se à mesa com Eça.

Já acontecera um primeiro jantar em dezembro, a pretexto da exposição “Tudo o que tenho no saco, Eça e os Maias”, inaugurada a 30 de novembro e patente até dia 18 de fevereiro. Mas, agora, a Fundação Gulbenkian, retoma agora com maior cadência uma agenda de degustação das referências gastronómicas na obra de um dos maiores vultos da literatura portuguesa, bon vivant, viajado, mas sempre defensor apaixonado da cozinha portuguesa.

“Nestes jantares não é apenas o que se come, é todo um ambiente que estamos a recriar”, explica ao Boa Cama Boa Mesa o chefe Miguel Castro e Silva, responsável pela confeção dos “pratos de Eça”. “A experiência do jantar tem todo um enquadramento, que proporciona conversas e trocas de ideias”, salienta.

O jantar é servido na linha de fina faiança, arte de Bordallo, denominado Varina de Lisboa, resgatado desde os 125 anos da Fábrica Bordallo Pinheiro, sendo o desenhador caricaturista (entre outros) amigo de Eça. Este serviço Bordallo completa precisamente 130 anos, os mesmos que celebra a obra Os Maias (1888).

Da ementa destes Jantares Queirosianos constam a Sopa de carne com macarrão; Bacalhau assado; Arroz de favas com frango assado e Tarte de maçã com Zabaglione de Porto. Os pratos são harmonizados com Tormes (branco, verde Minho), Quinta de Ventozelo, Touriga Nacional (Douro) e Vinho do Porto Dalva, Tawny 10 anos. O preço de cada um dos Jantares Queirosianos é de €25 por pessoa e as inscrições estão limitadas a 25 comensais.

Todos os pratos são referenciados na obra de Eça de Queirós, desde o Arroz de favas, em "A Cidade e as Serras", à Torta de maçã, no "O Crime do Padre Amaro", passando pela Sopa de macarrão, em "O Primo Basílio" e em "A Relíquia", assim como o Bacalhau, tanto no romance "Os Maias" como em "O Primo Basílio" também. Todos os comensais recebem um pequeno livro com os excertos das obras de Eça, onde este faz referências aos pratos do jantar, assim como a descrição das receitas de Miguel Castro e Silva.

“Hoje em dia já temos mais informação publicada, mas basicamente foram 'A Cidade e as Serras' e 'Os Maias' que mais me serviram de inspiração para os jantares”, confessa Castro e Silva.

“Houve um trabalho de adaptação à atualidade – atualmente come-se de uma maneira mais frugal do que na altura -, fiz um pouco diferente, mas na base tentei respeitar a cozinha da altura e tomei a liberdade de dar um toque pessoal e fazer uma Tarte de maçã com creme Zabaglione”, conta.

“Houve também que mergulhar na época porque, por exemplo, quando se fala de Bacalhau assado, isso pode ser aplicado a muitas receitas, por isso, falei com a Maria de Lourdes Modesto que me indicou que o Bacalhau assado da época, a que se referiria Eça de Queirós, seria um Bacalhau à Lawrence’s Hotel de Sintra, e que se faria com uma primeira fritura seguida de cozedura no forno”.

Miguel Castro e Silva revelou ainda “não ter sido complicado idealizar a ementa porque já, em 1995, no Porto, quando tinha o restaurante O Miguel, fiz durante uma feira de alfarrabistas (3ª Feira Internacional do Livro Antigo) uma série de jantares temáticos de tributo a escritores dos quais constavam Aquilino Ribeiro e Eça de Queirós, por exemplo”.

Na altura, recorda, foi “apoiado prelo crítico de gastronomia do jornal Expresso, José Quitério, que me ajudou na recolha de dados e que também tinha a memória”.

Após o primeiro jantar, Castro e Silva falou com convidados e percebeu que “estavam visivelmente satisfeitas”. Mas a história que maior felicidade lhe trouxe foi a de uma funcionária, que, depois de provar a Sopa de macarrão, feita em fogo lento durante cerca de três horas, lhe disse “que lhe lembrava a sopa de uma tia avó de Trás-os-Montes”. “Deixa-me imensamente feliz por perceber que estou no bom caminho”.

Para além dos jantares e a exposição “Tudo o que tenho no saco, Eça e os Maias”, a Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A, Lisboa. Tel. 217823000) apresenta cartas, crónicas, música e pintura, assim como alguns objetos pessoais do escritor, nunca antes mostrados em público.

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